Coisas que me irritam mesmo, mesmo muito
Há coisas pequenas que me irritam com uma intensidade desproporcionada, como grãos de areia dentro do sapato da convivência. Não chegam a ferir, mas obrigam-nos a caminhar atentos ao desconforto.
Irrita-me quando pergunto “como está?” e recebo um “mais ou menos” lançado ao ar, sem passado nem futuro, sem vontade de pousar a resposta em lado nenhum. Um “mais ou menos”, acompanhado de um encolher de ombros, é uma frase que se demite. Não pede continuação, não oferece verdade, não deixa a porta entreaberta. Fica ali, suspensa, como um elevador parado entre dois andares. Inútil.
Irrita-me também o “igualmente”. Sobretudo quando vem como resposta a votos de natal ou final de ano que escrevi com cuidado, desses que escolhem palavras como quem escolhe frutos maduros: com tempo, com atenção, com afeto. O “igualmente” devolve a forma, mas rouba a luz. Não é falta de educação — é só falta de presença. Um gesto automático antes de seguir caminho. Lamentável.
Talvez o que mais me irrite seja esta estranha ideia de que amar em excesso é pecado. Como se ser honesta, verdadeira ou inteira fosse um exagero socialmente embaraçoso. Como se gostar muito tivesse de ser disfarçado, contido, administrado em doses seguras. Irrita-me essa necessidade de reduzir o afeto para não incomodar os outros, de esconder o entusiasmo para não parecer vulnerável aos olhos dos demais.
Outra coisa que me irrita e me cansa profundamente é a mentalidade do “pouquinho”, do “vai-se andando”, do “tanto faz” ou "como preferirem". Chamo-lhe a filosofia do mínimo esforço emocional, onde nada merece demasiado envolvimento para não se correr o risco da desilusão. Vive-se assim num estado morno, confortável, mas perigosamente próximo do desinteresse e da indiferença. E a indiferença, essa sim, é um luxo triste.
Irrita-me também quando dou um presente sem motivo a alguém ou faço um elogio e recebo, em troca, um olhar desconfiado que pergunta “porquê?”. Como se a generosidade precisasse sempre de uma explicação, como se uma palavra bonita tivesse obrigatoriamente segundas intenções escondidas no bolso do casaco. Mas a verdade é que não tenho segundas intenções. Nem terceiras. A minha intenção é apenas aquela que é: dar porque me apetece, elogiar porque sim, dizer algo bom porque existe e merece ser dito.
Irrita-me essa suspeita permanente sobre o afeto gratuito, como se a espontaneidade fosse uma falha de carácter ou uma estratégia mal disfarçada. Como se tudo tivesse de ter um motivo utilitário, um cálculo prévio, uma razão aceitável, uma explicação exata. E no entanto, algumas das coisas mais bonitas da vida acontecem exatamente sem motivo. Expontaneamente.
No fundo, o que me irrita não são as palavras curtas, mas os encontros que se ficam pela metade e, por isso mesmo, prefiro o silêncio honesto do que um “mais ou menos” automático. Prefiro que não me digam nada do que um “igualmente” sem alma. Prefiro -sempre - o excesso sincero à contenção vazia. Porque viver é absolutamente maravilhoso e, mesmo nos dias comuns e banais, merece mais do que um simples encolher de ombros... merece inteireza.
PB
Comentários
Enviar um comentário