Aos 52: Entre o cansaço e o amor pelo que faço
Aos 52, acordas com um cansaço que não se explica. Não é apenas físico, embora os ossos reclamem e as costas digam “mais devagar”. É um cansaço de quem já viu demais, de quem já carrega expectativas próprias e alheias, de quem já mediu vitórias e fracassos no mesmo compasso silencioso.
Nesses dias olho para o que conquistei e sinto um orgulho discreto. Não são medalhas, nem títulos, nem aplausos. São manhãs em que levantei o corpo mesmo quando o sono parecia suficiente para desistir.
São decisões difíceis, perdas, recomendações silenciosas. São as pessoas que entraram na minha vida e me ensinaram que a vida não se mede pelo que se possui, mas pelo cuidado que temos com quem somos enquanto caminhamos.
Depois há tudo o que ainda me falta, territórios inteiros que ainda quero descobrir, livros para ler, textos que ainda quero escrever, palavras que ainda não encontrei para dizer aquilo que pulsa dentro de mim, desafios que não param de me provocar, que me dizem que ainda posso ser maior, melhor, mais inteira.
Sou perfeccionista. Mas o perfeccionismo é uma faca de dois gumes: corta, fere, consome, mas também ilumina o caminho. Porque se eu me entrego ao trabalho, é porque amo o que faço. Se me levanto cedo e vou dormir tarde, é porque quero transcender as minhas próprias expectativas, provar para mim mesma que hoje ainda há mais vida no meu corpo e na minha mente do que ontem.
Trabalhar todos os dias para me superar não é orgulho, é devoção. É amor silencioso pelo que foi construído, pelo que a vida escreve, pelo que tento deixar como marca — nem sempre visível, nem sempre claro para os outros, mas essencial para mim.
Trabalhar afincadamente todos os dias é aceitar que cada gesto, cada esforço, cada momento de esgotamento tem sentido porque é vívido com consciência. Porque há uma alegria profunda em saber que mesmo cansada, ainda sou capaz de criar, de cuidar, de me desafiar.
Há dias em que parece impossível continuar. O desgaste chega como uma sombra que acompanha cada passo. Mas, mesmo nesses dias, há luz. O amor pelo que faço, pelo trabalho, pelo acto de me superar, acenda essa luz. É ele que transforma exaustão em entrega, rotina em ritual, esforço em significado.
Aos 52, percebo que o sentido da vida não está fora de nós. Não está nos títulos, nos diplomas, nos elogios ou nas conquistas visíveis. Está na exigência silenciosa de sermos fiéis a nós mesmos. Está na coragem de continuar a me desafiar, mesmo quando a fadiga aperta, mesmo quando o mundo parece medir-me apenas pelo resultado final.
O sentido da vida aos 52 é desafiar-me todos os dias. É amar o que se faz, mesmo sabendo que a perfeição nunca chegará, mesmo sabendo que haverá dias em que os erros serão muitos e as vitórias quase invisíveis. É caminhar na corda bamba entre o que já possuímos e o que ainda queremos, entre o orgulho e a humildade, entre o cansaço e a alegria silenciosa de continuar.
E nesse equilíbrio reside uma verdade simples e profunda: a vida é esforço e amor, desgaste e entrega, dúvidas e coragem. É criar significado mesmo quando nada parece garantido. É continuar, todos os dias, tentando ser mais, ser melhor, ser inteira.
Porque aos 52 não se trata de provar nada a ninguém. Trata-se de honrar o próprio caminho, de respeitar a própria intensidade, de considerar que o cansaço não é fracasso e que o amor pelo que fazemos é a maior forma de vitória que podemos alcançar.
Aos 52, aprendi que crescer não é desistir. É insistir, com cuidado e paixão. É caminhar, mesmo quando dói. E, acima de tudo, é continuar a amar aquilo que nos leva a levantar da cadeira todos os dias a procurar hoje mais do que ontem, e a construir uma vida que vale a pena ser vivida, apesar de tudo.
PB
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