À luz de uma sexta-feira imperfeita

É sexta-feira.
E, em teoria, isso devia significar pausa, regresso, alguma forma de normalidade. Os filhos voltam para casa e, com eles, chega uma paz quase silenciosa — um alívio que se instala devagar, como quem tem medo de acreditar. A luz voltou. Um gesto simples, um interruptor que funciona, e de repente percebemos como o banal se transforma em privilégio.

Mas a vida continua longe de ser normal.

A rede falha, o sinal aparece e desaparece, o vento sopra com uma insistência inquietante e a chuva cai sem pedir licença. Há casas ainda mergulhadas na escuridão, famílias sem água, ruas onde o frio entra pelas paredes. Há quem não tenha para onde regressar, porque a ideia de casa ficou para trás, levada pela força de algo que ninguém conseguiu travar.

À medida que a comunicação se recompõe aos pedaços, vamos sabendo uns dos outros. Mensagens breves, quase sussurradas, como se o essencial coubesse em poucas palavras:
“Estamos bem.”
“Stora, está tudo bem por aí?”

Cada mensagem é um sinal de vida. Um fio ténue que liga pessoas num território ferido. Mas por cada voz que chega, há tantas outras que se perdem no silêncio. Pessoas que pedem ajuda e encontram apenas o eco das próprias palavras. Apelos repetidos, publicados, gritados — e ignorados. Lugares onde a ajuda não chega, não porque não exista, mas porque não se chega igual a todo o lado. Porque há geografias esquecidas, populações invisíveis, vidas que não cabem nos mapas da urgência mediática.

As notícias acumulam-se e trazem consigo uma sensação difícil de digerir: um governo que tarda, respostas que chegam tarde demais, apoios prometidos que ficam presos na burocracia, no trânsito impossível, na falta de coordenação. Não por maldade explícita, talvez, mas por um sistema que nunca é verdadeiramente justo quando tudo colapsa. Em momentos de crise, percebe-se com brutal clareza que a igualdade é frágil e que a vulnerabilidade não é distribuída de forma democrática.

E, pelo meio, há também quem revele prioridades estranhamente desalinhadas. Discussões pequenas, indignações seletivas, ruídos que abafam o essencial. Como se, perante a falta do básico, ainda fosse possível fingir que nada mudou. Como se algumas vidas fossem mais urgentes do que outras.

Nestes dias, a fragilidade humana expõe-se sem filtros. Bastou faltar luz, água, abrigo, comunicação — o mínimo — para vermos como somos dependentes, como a sensação de controlo é uma ilusão confortável. A normalidade, afinal, é um equilíbrio precário que se sustenta enquanto tudo funciona.

E, ainda assim, no meio da falha, há humanidade. Há alunos que se preocuparam em saber de nós, há pessoas que se procuram e amigos que não falham, há quem cuide mesmo sem ter nada para dar. Talvez seja isso que nos mantém de pé: a insistência em saber do outro, em responder quando se pode, em dizer “estou aqui” mesmo quando tudo o resto falha.

É sexta-feira.
Há filhos em casa, uma luz acesa, e uma mistura estranha de gratidão e inquietação. A paz que existe não é plena — é consciente, frágil, atravessada pela dor dos que ainda esperam. E fica claro que a vida, quando nos retira o essencial, obriga-nos a olhar de frente para quem somos: frágeis, desiguais, dependentes — mas ainda capazes de empatia, de crítica e de não aceitar o silêncio como resposta.

PB

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