A Felicidade não é um lugar calmo
Disse, na virada do ano, que queria ser ainda mais feliz. E isso não significa paz constante, nem dias fáceis. Felicidade não é um lugar onde nada acontece. É um lugar onde aprendemos a ficar, mesmo quando tudo acontece ao mesmo tempo.
Ser feliz é aceitar o desconforto de crescer. É entender que alegria e cansaço podem andar de mãos dadas. Que, por vezes, a felicidade chega disfarçada de decisão difícil, de despedida necessária, de um não dito a tempo — daqueles que protegem mais do que ferem.
Hoje preparei-me para dizer adeus aos meus filhos. Eles partem outra vez, regressam às suas rotinas, aos seus caminhos próprios, e eu fico. Fico com a casa um pouco maior, o silêncio mais evidente e o coração ligeiramente encolhido. Chorei. Não por fraqueza, mas porque amar também é isto: sentir a ausência antes mesmo de ela se instalar. Quanto mais crescem, mais longe voam, e essa distância, mesmo quando é sinal de vida bem vivida, dói.
Há dias em que sofro com a ausência deles de forma quase física. E, talvez por isso, trabalho mais. Fico mais tempo acordada, ocupo as mãos, a cabeça, os dias. Como se o cansaço pudesse distrair a saudade. Como se a rotina fosse uma forma de anestesia temporária — não para esquecer, mas para aguentar.
Hoje preparo também o meu regresso às minhas rotinas matemáticas. Aos exames da faculdade para corrigir, aos meus estudos, às perguntas que pedem rigor e paciência. Regresso definitivamente à rua onde trabalho, às salas conhecidas, às minhas pessoas de sempre — essas que, sem saber, me ajudam a sustentar os dias comuns.
Talvez a felicidade seja isso: aceitar que a vida nos pede presença inteira, mesmo quando o coração se divide. A vida não nos deve suavidade. Deve-nos verdade. E a verdade, ainda que por vezes doa, é o que nos mantém de pé, atentos e profundamente vivos.
PB
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