Zêzere, no coração da Estrela

 Há rios que passam. O Zêzere não passa: permanece. Mesmo quando avança, parece ficar. Talvez seja por isso que nos identificamos com ele — porque a vida também é este paradoxo entre movimento e permanência. Caminhamos, mudamos, atravessamos dias difíceis e dias luminosos, mas alguma parte de nós fica sempre ancorada em certos lugares, certas pessoas, certos instantes.

O rio que nasce na minha terra, no coração da Estrela, ensina uma coisa simples: não é preciso ter pressa para chegar. O rio corre, claro, mas nunca corre contra si próprio. Não tenta agradar às margens, nem provar nada a ninguém. Apenas segue, com uma honestidade tranquila que às vezes falta às pessoas. Há quem não esteja destinado a caminhar connosco, quem fique para trás na primeira curva, quem nunca perceba o nosso ritmo interior — e está tudo bem. Nem todos os afluentes se encontram. Nem todas as mãos se cruzam, nem todos os olhos refletem o que precisamos ver. E o rio continua, indiferente e paciente.

O rio também muda todos os dias. A luz toca-lhe de forma diferente, a corrente altera-se, o reflexo das margens transforma-se. Às vezes é dourado, às vezes cinza, às vezes quase invisível sob a chuva ou o nevoeiro. E, no entanto, continua a ser o Zêzere. Assim é a vida: mudamos imensos detalhes, mas mantemos um núcleo que resiste, mesmo quando pensamos ter-nos perdido. Crescer é aceitar essa oscilação — não sermos os mesmos, mas não deixarmos de ser nós. Crescer é entender que cada mudança é parte do rio que carregamos dentro de nós.

Há quem olhe para o Zêzere e veja apenas água. Eu vejo passagem. Vejo tudo aquilo que foi levado: dores antigas, perguntas sem resposta, escolhas mal feitas, e tudo aquilo que regressa noutra forma: coragem, lembranças, a maturidade suave de quem já atravessou tempestades e não se deixou afogar. Vejo a força silenciosa de continuar, mesmo quando tudo parece lento demais ou demasiado rápido para ser controlado.

O rio da minha terra sussurra, se escutarmos: que cada curva da vida tem o seu tempo; que a corrente nos leva mesmo quando não entendemos; que existem margens que acolhem e margens que afastam — e isso não nos diminui. Que há beleza no que se perde, assim como no que se mantém. Que há verdades que só a passagem do tempo revela.

Talvez seja isso que o rio nos ensina: a vida não é um destino, é um fluxo. Que continuar é um gesto de fé. Que existe uma tranquilidade que nasce do simples ato de permanecer, do simples ato de avançar. Que não precisamos de agradar a todos, nem de convencer ninguém do nosso valor. Que não somos responsáveis pelas curvas que outros tomam, nem pelas águas que decidem não nos acompanhar.

No fim, o Zêzere ensina aquilo que demoramos anos a entender: não há pressa, não há rota perfeita, não há mapa seguro. Há apenas a coragem de avançar e a serenidade de permanecer.

Há apenas a confiança de que cada onda, cada reflexo, cada som das águas nos aproxima um pouco mais de nós mesmos, mesmo que o caminho seja silencioso, lento, solitário ou inesperado.

E que, no fluxo contínuo do rio e da vida, existe sempre algo que vale a pena observar, sentir e guardar.


PB

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