um abraço que é casa

 Eu abraço as pessoas como quem as devolve ao mundo. Não é só um gesto, é uma arquitetura. Há quem construa casas com tijolos, eu construo-as com braços. Talvez porque aprendi que há almas que tremem de frio por dentro, mesmo em agosto.

Quando gosto de alguém, abraço como quem diz sem palavras: podes pousar aqui um pouco, o chão é seguro. E às vezes sinto que o abraço é a única forma de oração que realmente compreendo — uma espécie de templo portátil, sem vitrais, mas com o calor exato da presença.
Um dia, uma aluna olhou para mim depois de um desses abraços e disse:
— A professora tem um abraço que é casa.

E essa foi, sem dúvida, a frase mais bonita que um aluno já me disse.
Porque casa não é um lugar, é uma sensação. E, se o meu abraço conseguiu ser isso — um teto invisível, uma trégua no caos, um intervalo de ternura — então já fiz mais do que apenas ensinar axiomas e teoremas.
Desde esse dia, abraço com ainda mais cuidado. Como quem segura o mundo para que ele não desabe.
Porque há quem entre num abraço e saia melhor do que entrou — mais inteiro, mais vivo, mais possível. E eu, cada vez que abraço alguém, também volto a casa.

Talvez o abraço seja o primeiro idioma que aprendemos, antes das palavras, quando ainda não sabíamos nomear o amor. Um idioma sem gramática, mas com sintaxe de pele e respiração.
Há abraços que colam os pedaços que o tempo descolou. Há outros que apenas encostam o silêncio no silêncio, para lembrar que existir é suportável quando há um corpo onde pousar o cansaço.
Um abraço é, por vezes, uma carta que chega sem selo nem destinatário — apenas o aviso de que ainda há morada em alguém.

E penso que as casas verdadeiras não têm paredes, têm pessoas. São feitas de memórias, risos e ombros onde se pousa a cabeça. Há quem more em palácios e viva desalojado de afeto. E há quem more num abraço e tenha tudo o que precisa.

Talvez seja isso o que procuro quando abraço: reconstruir o que o mundo derruba, reacender o lume nas lareiras apagadas das almas.
Um abraço é o contrário da ausência — é o lugar onde o tempo abranda e o coração entende que, afinal, ainda é possível estar inteiro, mesmo que só por um instante.

E se algum dia me perguntarem o que quero deixar como herança, direi apenas isto: um punhado de palavras, alguns gestos gentis e abraços suficientes para que nunca ninguém se sinta sem casa dentro de si.

PB

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