Sobre recusar o efeito de manada e ser dona da própria voz

Há quem caminhe com o passo emprestado dos outros, como se o chão só existisse depois de ser pisado por muitos. Essas pessoas confundem segurança com repetição e chamam destino ao hábito. Vivem em manada não por falta de pernas, mas por medo do silêncio que acompanha quem escolhe ir só. O silêncio, afinal, não é vazio: está cheio de perguntas, e poucas pessoas sabem conviver com elas.

Desde cedo aprendemos a alinhar. Primeiro na escola, depois na vida. Filas invisíveis organizam opiniões, gostos, sonhos. Há quem nunca repare que está em marcha. Outros percebem, mas continuam, porque sair da fila exige explicar-se — e explicar-se cansa. A manada tem esse conforto: dispensa justificativas.

A coragem, essa palavra que costuma vestir armaduras e erguer bandeiras, às vezes apresenta-se de forma mais modesta: um pensamento não partilhado, uma recusa dita em voz baixa, um desvio quase imperceptível no caminho. É aí que ela se revela mais humana. Não no grito, mas no sussurro que insiste. Um sussurro que ninguém aplaude, mas que ecoa por dentro como um sino antigo.

Há pessoas que, num determinado dia banal, decidem não repetir uma frase pronta. Não levantam barricadas nem escrevem manifestos. Apenas não concordam. E esse gesto mínimo — invisível aos olhos do mundo — altera o eixo secreto da existência. Como uma pedra retirada do bolso que, de repente, permite caminhar melhor.

Ser fora da manada não é desprezar os outros, é recusar a anestesia do consenso. É aceitar o risco de errar com ideias próprias, em vez de acertar por imitação. Quem pensa sozinho não está necessariamente só; carrega consigo uma pequena multidão de dúvidas, memórias e perguntas que não cabem em fila indiana. São vozes desalinhadas, mas vivas.

Há também solidões que não doem. São como casas com janelas abertas. Nelas, o indivíduo aprende a escutar o mundo sem repetir-lhe o eco. Aprende que nem toda a companhia é presença e que nem toda a solidão é ausência. Fora da manada, descobre-se que a identidade não é um uniforme, mas um tecido costurado à mão, com falhas e remendos.

Talvez por isso a liberdade seja tão desconfortável. Não oferece aplausos imediatos nem garante abrigo. Exige que o indivíduo seja autor da própria travessia, mesmo quando o mapa falha e o mundo pede obediência. Caminhar sem manual é tropeçar mais, mas também ver coisas que o grupo não vê: uma árvore fora do lugar, um rio que muda de nome, um atalho que só existe para quem ousa perder-se.

A manada corre, mas raramente observa. Está ocupada demais em chegar. Quem caminha só, mesmo devagar, aprende a olhar. E olhar é um ato perigoso: transforma. Nada permanece igual depois de ser realmente visto.

E no entanto, é nesse gesto solitário — quase invisível — que o ser humano se levanta inteiro. Não acima dos outros, mas dentro de si. Porque não viver em manada não é um ato de rebeldia contra o mundo: é, antes de tudo, um raro e silencioso gesto de fidelidade à própria consciência.

Um gesto que não faz barulho, não funda movimentos, não pede seguidores. Apenas mantém o humano de pé, mesmo quando tudo à volta prefere ajoelhar-se à facilidade de pertencer a qualquer preço a qualquer lugar.


PB

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