Sobre o solstício
No dia mais curto do ano, a Terra parece conter a respiração. O sol detém-se por um instante, como quem pousa a mala no chão antes de decidir continuar viagem. É o solstício de inverno: uma pausa mínima, quase invisível, mas suficiente para mudar o rumo do tempo. A partir daqui, os dias começam a crescer — primeiro com a timidez de quem pede licença, depois com a confiança de quem já sabe o caminho.
Há uma sabedoria antiga neste gesto do mundo. A luz não regressa em excesso; regressa em migalhas. Ensina-nos que crescer não é romper de uma vez, mas insistir devagar. A natureza, professora paciente, não tem pressa. As árvores sabem disso: parecem imóveis, mas por dentro reorganizam os seus segredos. As sementes dormem, não por desistência, mas por estratégia.
Aprender com a Terra é aprender a abrandar. Nestes dias curtos, o frio convida ao recolhimento, e o silêncio ganha espessura. Não é um silêncio vazio, é um silêncio que trabalha. Há coisas que só acontecem quando paramos: o pensamento encontra o seu ritmo, a memória arruma-se, o futuro deixa de gritar. É neste intervalo que começamos, sem dar por isso, a organizar-nos por dentro, como quem limpa uma casa antes de abrir as janelas.
Seguimos o rumo da Terra quando aceitamos que nem sempre é tempo de florir. Há estações feitas de espera, de escuta, de sombra. O inverno não é o contrário da vida; é a sua preparação. A esperança da primavera não é uma ansiedade, é uma confiança tranquila: ela virá porque sempre veio. E enquanto não chega, aprendemos a tornar-nos terreno fértil.
O solstício lembra-nos que a luz não desapareceu — apenas se afastou o suficiente para nos ensinar a falta. E é por isso que, quando regressa, mesmo em minutos quase indecifráveis, sabemos reconhecê-la. Cada dia um pouco maior é uma promessa discreta, um ensaio de primavera escrito no calendário do mundo.
Talvez a magia esteja aí: confiar que o movimento continua mesmo quando parece parado. Que a vida se organiza em silêncio, à semelhança da Terra. Que a primavera começa muito antes das flores — começa agora, neste gesto íntimo de espera, onde aprendemos a ser casa para aquilo que ainda vai nascer.
PB
Comentários
Enviar um comentário