sobre a fragilidade de algumas amizades
- Obter link
- X
- Outras aplicações
A amizade, às vezes, é um país estrangeiro onde entramos sem mapa. vamos confiando nos gestos, nas palavras doces, nesses pequenos brilhos que as pessoas acendem quando precisam de nós e acreditamos — sempre acreditamos — porque há uma parte inocente em nós que insiste em ver bondade até nas sombras.
Mas há amizades que são como copos lascados: parecem inteiros, mas ferem a boca quando bebemos delas. Aproximamo-nos, oferecemos abrigo, abrimos espaço dentro de nós, e elas ficam enquanto o calor lhes convém, depois, quando encontram outro colo, outro ombro, outro interesse, evaporam-se.
E o mais curioso é que não levam tempo a ir embora — levam é explicações. Saem pela porta sem fechar, sem olhar para trás, como se nós fôssemos uma estação de comboios onde só se passa para apanhar o próximo destino, e ficamos a ver a poeira assentar, com uma pergunta que não se cala: em que momento deixámos de ser necessários?
A liquidez dos afetos é isto: gente que não cria raízes, que pousa e descola, que não sabe ficar. E nós, tolos, confundimos presença com permanência. Damos o coração numa bandeja, e eles usam-no como utensílio descartável.
Há quem diga que perder amigos é parte da vida. Eu acho que perder pessoas que nunca foram de verdade é, na verdade, um reencontro connosco. Porque cada adeus que não chega é um espelho: mostra-nos o que oferecemos sem medida, e o que recebemos sem cuidado.
Mas também aprendi uma coisa: não se mendiga lugar no mundo de ninguém. Quem quer ficar, fica. Quem quer ouvir, escuta. Quem quer cuidar, aproxima-se sem pedir troco. Os outros… bem, os outros ensinam-nos sobre ausência — e depois vão embora, cumprindo a sua única função.
E apesar da dor, há qualquer coisa de fértil nisto. No vazio que deixam, cabe uma nova luz. No espaço onde antes havia ilusão, cresce verdade. E nós seguimos, um pouco mais fortes, um pouco mais sábios, com a suave certeza de que a lealdade não se pede — reconhece-se.
E há ainda outra coisa que a vida me tem mostrado: ninguém foge das lições. Aqueles que nos descartam também serão descartados algures, por alguém que os fará sentir a mesma leveza com que desapareceram de nós. Não por vingança — mas porque a vida tem um talento curioso para devoluções.
Um dia, essas pessoas vão olhar para trás e perceber que partir sem dizer adeus não os levou mais longe. Perceberão que os laços que cortaram à pressa eram os únicos que lhes seguravam a alma. E então, talvez tarde demais, aprenderão que somos todos feitos da mesma fragilidade: quando não cuidamos, perdemos; quando não valorizamos, ficamos sós.
Porque a vida, essa paciente artesã, encarrega-se sempre de ensinar o que recusamos aprender. E quem nos abandonou sem motivo acabará por ouvir o silêncio que deixou — desta vez, ecoado no próprio peito.
PB
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Comentários
Enviar um comentário