Quase fim quase início

O final do ano aproxima-se como quem não bate à porta: chega. Traz um cheiro de calendário velho, de promessas por cumprir e de uma vontade estranha de recomeço, mesmo quando não sabemos bem o quê. Há quem faça listas — desejos alinhados como soldados — e há quem não peça nada, por cansaço ou por uma forma secreta de sabedoria. Às vezes, não desejar é também um desejo.

O ser humano é esse lugar confuso onde cabem planos detalhados e vazios imensos. Somos feitos de contradições: queremos mudar e, ao mesmo tempo, tememos o movimento. Carregamos mapas para futuros que talvez nunca visitemos e memórias que insistem em morar no presente. Há dias em que nos sentimos inteiros; noutros, somos apenas um conjunto de perguntas sem resposta.

A ansiedade aparece como um relógio sem ponteiros, marcando todas as horas ao mesmo tempo. O medo, esse velho conhecido, disfarça-se de prudência, de silêncio, de adiamento. Não grita — sussurra. Diz para esperarmos mais um pouco, para não arriscarmos agora, para não acreditarmos tanto. E, ainda assim, continuamos. Com receio, mas continuamos. Talvez isso seja coragem: avançar mesmo quando o corpo treme.

As expectativas pesam. São malas cheias demais para uma viagem curta. Esperamos de nós, dos outros, do próximo ano, uma versão melhorada da vida — mais leve, mais justa, mais feliz. Mas há também uma beleza estranha na ausência de expectativas. Quando nada é exigido, tudo pode acontecer. O ano novo, visto assim, deixa de ser uma promessa e passa a ser apenas tempo — e tempo já é muito.

Escrever, pensar, existir no fim do ano é um exercício de escuta. Escutamos o que fomos, o que ainda dói, o que quase nasceu. Como se cada pessoa carregasse uma pequena biblioteca interna: alguns livros inacabados, outros que releríamos com carinho, e aqueles que ainda não tivemos coragem de abrir. Talvez o próximo ano não precise ser extraordinário. Talvez baste ser vivido com atenção.

E se não houver planos, tudo bem. Se houver medo, também. O humano é isso: seguir em frente com as mãos imperfeitas, o coração cheio de ruídos e a esperança discreta — não aquela que faz discursos, mas a que senta ao nosso lado e fica.


PB

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