Quando o novo ano aprende a dizer o nosso nome

O primeiro de janeiro chega como quem entra em casa descalço, para não acordar a noite inteira. A madrugada ainda guarda vestígios de ontem — copos esquecidos sobre a mesa, risos que já se dissolveram no ar, promessas feitas com a voz ligeiramente embriagada de futuro — e, ainda assim, o dia nasce limpo, como uma página que insiste em acreditar em nós.

Na noite anterior, quando o ano mudou de nome, pedi por todos. Não fiz distinções. Pedi pelos que estão, pelos que ficam, pelos que resistem ao tempo e às ausências. Festejei os que tenho — esses que me habitam os dias, que me seguram quando o mundo pesa — e relembrei, com a delicadeza que só a memória conhece, os que me deixaram. Alguns partiram para longe da vida, outros apenas para longe de mim. Nenhum partiu verdadeiramente. Continuam aqui, invisíveis e essenciais, como raízes que sustentam mesmo quando não se veem.

À meia-noite ergui o copo bem alto, como quem levanta um farol no meio da noite, e gritei a plenos pulmões: quero ser ainda mais feliz. Disse-o sem pedir desculpa, sem medo de que a vida me achasse exigente, como se desejar felicidade fosse um excesso, um atrevimento. Não pedi pouco. Pedi inteiro. Porque já aprendi que viver pela metade não nos protege — apenas nos atrasa.

Há qualquer coisa de profundamente humano neste dia. Não é a ilusão ingénua de que tudo mudará, mas a esperança discreta de que algo pode mudar. O calendário avança um número, é verdade, mas o que realmente se desloca é o olhar. Tornamo-nos mais atentos ao tempo, mais disponíveis para a possibilidade de recomeço. O primeiro de janeiro não exige heroísmos; pede apenas coragem suficiente para continuar.

As ruas parecem mais largas, como se o mundo tivesse aberto espaço para que as pessoas se reencontrem consigo mesmas. O silêncio é outro — não é vazio, é atento. Dentro dele cabem as memórias do ano que passou, com as suas falhas, despedidas e pequenas vitórias que quase ninguém viu. Cabem os nomes que já não dizemos em voz alta e os sonhos que aprenderam a andar devagar, mas não desistiram.

Talvez seja isso que torna este dia especial: ele não promete felicidade, mas oferece possibilidade. Um pacto silencioso entre o tempo e quem o atravessa. Um acordo sem testemunhas em que dizemos: ainda estou aqui — e isso, por agora, é suficiente.

O primeiro de janeiro sabe que somos imperfeitos. Sabe que voltaremos a errar, a adiar, a ter medo. Mesmo assim, estende-nos a mão com uma ternura quase literária, como quem compreende. Como se dissesse que a vida não precisa ser extraordinária para valer a pena; precisa apenas de ser vivida com atenção, gentileza e uma certa teimosia em acreditar.

E assim começamos outra vez. Não como quem apaga o passado, mas como quem aprende a carregá-lo com mais cuidado. O ano abre-se diante de nós, vasto e desconhecido, e damos o primeiro passo sem garantias — apenas com a certeza serena de que recomeçar é, no fundo, um ato de amor.

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