Quando a máscara cai ...
Vivemos num tempo em que as pessoas vivem a representar vários papéis, a usar máscaras para tentar ser o que não são evitando mostrar a sua verdadeira essência. Vivem a fingir ser qualquer coisa que não são com medo de que, ao mostrar a sua essência, não sejam aceites ou amados. Mas ninguém pode passar a vida a fingir ser algo que não é.... chega um momento na vida em que é preciso perceber que viver com máscaras pesa. No início, parecem leves, pequenas adaptações que se fazem aqui e ali, concessões discretas, gestos que se fazem para não desagradar, palavras que se escolhem para não desapontar. Mas, com o tempo, tudo isto se torna uma segunda pele, rígida, apertada, silenciosa. E um dia, simplesmente, já não conseguirão respirar dentro dela.
A liberdade começa nesse instante: quando o corpo nos avisa que está cansado de caber em moldes que não foram feitos para ele. Quando a alma reclama por espaço. Quando a própria voz, mesmo fraquinha, começa a bater na porta de dentro e pedir para sair.
Ser autêntico é uma forma de desobediência. Não no sentido rebelde, mas no sentido em que liberta: o de parar de viver segundo as expectativas alheias, de deixar de repetir papéis que outros escreveram para nós, de assumir que não vamos agradar a todos, e que isso não é uma falha, mas sim uma consequência natural de existir com e em verdade.
Há quem diga que a autenticidade exige coragem. Eu acho que exige, antes de tudo, honestidade. A coragem vem depois, quando percebemos que ser nós mesmos tem um custo: o afastamento de alguns, o desconforto de outros, a estranheza inicial de caminhar sem camuflagem. Mas acreditem vale muito a pena. Porque tudo o que nasce da verdade respira. Tudo o que nasce da liberdade dura.
Encontrar a própria voz não é um ato grandioso. É uma série de pequenos gestos: dizer “não” quando todos esperam um “sim”; admitir que já não nos encaixamos onde antes cabíamos; escolher pessoas que nos ampliam em vez de nos reduzirem; abraçar as nossas excentricidades; assumir desejos que guardámos por medo de julgamento, sermos diferentes dos outros e do "normal" e sermos felizes. É sermos verdadeiros com os outros e connosco. É respirar fundo e finalmente sentir o ar entrar.
No fundo, ser autêntico é deixar de pedir permissão para existir. E há algo profundamente bonito nisso: quando deixam cair as máscaras, descobrem que não estavam sozinhos porque havia sempre alguém à espera de os encontrar tal como são e de gostar deles exatamente assim. E, mais importante ainda, descobrem que estavam, eles mesmos, à espera desse encontro e que é um alívio poderem ser como são, sem ter que fingir ser algo diferente.
Liberdade não é fazer tudo sem consequências. Liberdade é ser verdadeiramente quem se é sem precisar de fingir. E essa é, talvez, a escolha mais generosa que podemos fazer por nós mesmos.
PB
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