Quando As Aulas Acabam (ou Fingem Acabar)

O ano letivo aproxima-se do fim como um corredor demasiado estreito. Não há janelas, não há bancos para sentar. Há apenas portas que se fecham depressa e uma última semana carregada de testes, como se o conhecimento pudesse ser espremido à força antes do Natal.

Dizem-nos que é tempo de avaliar. Mas avaliar o quê, exatamente? A resistência dos miúdos ao cansaço? A capacidade de decorar o mundo em capítulos apressados? Ou a docilidade de aceitar que aprender, no fim, se parece perigosamente com sobreviver?

Nesta última semana, quando o calendário pede pausa e o corpo pede silêncio, empilhamos provas umas sobre as outras. Testes que não dialogam entre si, datas que se atropelam, matérias despejadas com a urgência de quem confunde quantidade com rigor. Ensina-se muito, aprende-se pouco. E no meio disto tudo, esquecemo-nos de olhar.

Porque olhar dá trabalho. Exige tempo. E tempo é coisa que parece faltar sempre quando se fala de educação.

Há quem olhe para os alunos e não veja humanos. Vê máquinas de desempenho contínuo, linhas num gráfico, médias aritméticas que precisam fechar certas e limpas antes das férias. Espera-se que funcionem sem falhas, que não se cansem, que não sintam. Que engulam conteúdos e os devolvam em folhas pautadas, com letra firme e respostas certas.

Mas os miúdos chegam cansados. Cansados de correr atrás de expectativas que não são deles. Cansados de falhar sonhos que ainda nem tiveram tempo de sonhar. Cansados de perceber, cedo demais, que uma nota pode pesar mais do que um processo, mais do que uma pergunta bem feita, mais do que a coragem de errar.

As notas, essas, muitas vezes não saem como deviam ser. Não porque os alunos não saibam, mas porque o saber não coube no tempo imposto, nem no formato exigido. Avalia-se a pressa, não a compreensão. Avalia-se o produto final, ignorando o caminho cheio de tropeços — que é, afinal, onde a aprendizagem acontece.

E depois falamos de médias. Como se uma média pudesse conter um ser humano inteiro. Como se o futuro coubesse numa casa decimal. Colocamos essas médias em jogo como se fossem fichas de casino, decidindo destinos, portas que se abrem ou se fecham, enquanto os alunos aprendem, em silêncio, que o seu valor pode ser reduzido a um número.

É assim que se defraudam sonhos: não com grandes violências, mas com pequenas negligências diárias. Com programas extensos demais e profundidade de menos. Com a obsessão pelo cumprir e o esquecimento do cuidar.

O Natal aproxima-se com a sua promessa de pausa, de encontro, de humanidade. Mas a escola, muitas vezes, chega lá exausta, sem tempo para respirar.

E mesmo quando as aulas suspendem, a escola não larga. Leva-se nos livros enfiados na mochila das férias, nos testes marcados para os primeiros dias de janeiro, na culpa silenciosa de quem tenta descansar sabendo que devia estar a estudar. As férias de Natal transformam-se num parêntesis ansioso, onde o descanso é sempre incompleto e o convívio é atravessado pela sombra da matéria que ainda falta rever. Esquecida de que educar também é ensinar a parar. A escutar. A deixar que o conhecimento assente como a poeira depois da caminhada.

Talvez o verdadeiro final das aulas não devesse ser um sprint, mas um pousar suave. Um tempo de fechar ciclos com sentido, não com pressa. Um tempo de reconhecer que, antes de alunos, temos pessoas. Pequenas, sim. Mas inteiras.

E enquanto não aprendermos isso, continuaremos a confundir educação com produção em série, e a perguntar-nos, todos os anos, porque é que tantos chegam ao fim cansados, descrentes, a achar que falharam — quando, na verdade, foi o sistema que nunca soube esperar por eles.



PB

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