Pequenas vitórias que ninguém vê
Aquilo que diariamente nos salva sem aplausos
Há lágrimas que seco sozinha, como quem arruma a casa antes que alguém chegue. Não por vergonha, mas por hábito. Aprendi muito cedo que nem todas as dores precisam de testemunhas. Algumas existem apenas para nos tornar mais densos por dentro.
Dou ajudas que não deixam rasto. Pequenos gestos sem assinatura, sem fotografia, sem agradecimento. Faço-o porque posso, porque devo, porque o mundo não se aguenta apenas com grandes actos visíveis. O mundo sustém-se, sobretudo, destes movimentos discretos que ninguém contabiliza.
Carrego amor no peito como quem carrega água numa concha: com cuidado, para não a perder. Não é um amor ruidoso. É um amor atento, que observa, que espera, que insiste. Um amor que se oferece mesmo quando o cansaço pesa mais do que o corpo.
Disfarço o cansaço com competência e presença. Trabalho doze horas seguidas, de segunda a sábado, e ainda assim entro - todos os dias - na sala com a mesma vontade de ensinar, de motivar e de criar a diferença. Não por obrigação, mas por fidelidade àquilo em que acredito. Todos os dias tento fazer da minha disciplina a melhor de todas, não por vaidade, mas por respeito — a mim, aos outros, ao conhecimento.
Sou pacifista, mas resistente. Não levanto a voz com facilidade, mas também não cedo no essencial. Vigio, observo, mantenho-me atenta. A força que uso não é de confronto, é de permanência. Ficar, continuar, insistir — também é uma forma de coragem.
Há um rigor que me acompanha, não como dureza, mas como cuidado. Exijo e sou rigorosa porque acredito. Organizo porque amo. Defendo limites, não para conter a vida, mas porque quero que a vida floresça dentro deles e encontre lugar onde crescer. E amo a vida com paixão, mesmo quando ela se apresenta cansada, imperfeita, incompleta.
Todos os dias venço medos que ninguém vê. Desafio-me a ir mais longe, a ser mais e melhor, mesmo quando a dúvida sussurra que já é tarde ou que não vale a pena. Mas vale. Vale sempre a pena porque há sempre algo à frente que justifica o passo seguinte.
E depois há a amizade. Essa força invisível que me salva sem saber. As minhas pessoas de todos os dias que me dão abrigo sem o saber. Presenças que me sustentam, mesmo quando não fazem ideia do peso que ajudam a carregar.
No fim do dia, percebo que estas são as verdadeiras vitórias: as que não pedem aplauso, as que não se exibem, as que não aparecem em lugar nenhum. Porque são elas que, silenciosamente, nos mantêm vivos.
PB
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