O Silêncio Depois da Festa
Há um silêncio que chega depois do Natal, e é quase sagrado.
As luzes ainda piscam, mas já não competem com o ruído do mundo.
Os papéis rasgados estão no chão — uma pequena arqueologia da alegria — e o ar parece mais leve, como se a casa finalmente respirasse.
Gosto desse intervalo.
Do som das coisas a voltarem ao seu lugar.
Das cadeiras puxadas devagar, dos talheres arrumados, da mesa que volta a ser mesa — sem centro de mesa, sem discurso, sem expectativa.
Depois da festa, há um tipo de verdade que se revela.
Os sorrisos que ficaram, o afeto que não se forçou, o abraço que durou meio segundo a mais.
O resto — o exagero, o protocolo, o desempenho — evapora-se com o champanhe.
O dia 25 à noite é o dia em que a alma arruma o Natal.
E o faz, se tiver sorte, em silêncio.
Não o silêncio do vazio, mas o silêncio pleno — aquele que vem quando algo foi vivido por inteiro.
Há quem sinta melancolia neste dia.
Eu sinto gratidão.
Por ter a casa em ordem, os cheiros ainda no ar, e a memória de ter estado, de verdade, com quem importa.
No fim, o Natal é isso: o rasto discreto de um amor bem vivido.
E o silêncio — esse — é o seu último presente.
Há um instante, depois do Natal, em que tudo fica suspenso.
A casa ainda guarda o perfume dos cozinhados, os brilhos da árvore, o eco dos risos — mas já respira mais devagar.
É o momento em que olho em volta e sinto: o mundo sobreviveu à festa.
As fitas repousam, as chávenas esperam, os papéis amarrotados contam histórias no chão.
Gosto desse silêncio que se instala — não o da ausência, mas o da plenitude.
Como se o tempo dissesse: “já podes descansar, já viveste o suficiente por hoje.”
Sento-me com uma chávena de café e deixo a alma arrumar-se sozinha.
Penso nos sorrisos da manhã, nos olhos dos meus filhos, na forma como a minha mãe riu, no cuidado que se trocou em cada embrulho.
Cada detalhe encontra o seu lugar dentro de mim — como uma gaveta que se fecha suavemente.
Depois do Natal, há uma paz que não vem do descanso, mas do sentido.
É o sossego de quem fez tudo com amor — e agora pode simplesmente existir.
Não preciso de mais música, nem de mais luzes.
Só do som discreto da casa viva, das respirações que se cruzam, da certeza de que, por um breve instante, tudo esteve absolutamente certo.
PB
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