O Que Meio Século Nos Obriga a Desaprender

Chegar a meio século não é acumular certezas, é aprender a desfazê-las.

Desaprender torna-se um exercício necessário, quase ético. Porque aquilo que um dia nos orientou pode, com o tempo, tornar-se prisão. Crescer é também ter a coragem de rever, soltar e reconfigurar.

Desaprendemos a ideia de que o mundo é justo por si mesmo. Com o tempo, percebemos que a justiça não é uma ordem natural, mas uma construção frágil, sempre inacabada. Aprendemos que o sofrimento não é sinal de falha pessoal e que o mérito, por si só, não protege do acaso nem da perda.

Desaprendemos a urgência de ter razão. A maturidade ensina que compreender é mais importante do que vencer. Que muitas verdades coexistem, mesmo quando se contradizem. E que insistir numa única leitura do mundo empobrece o diálogo e endurece o espírito.

Desaprendemos a confundir sucesso com acumulação. Com o tempo, percebemos que crescer não é somar títulos, bens ou reconhecimentos, mas aprender a escolher o essencial. Há uma inteligência silenciosa em saber parar, em recusar excessos, em proteger o que ainda nos permite respirar.

Desaprendemos a ideia de controlo. A vida ensina que quase nada nos pertence verdadeiramente — nem o tempo, nem as pessoas, nem os percursos. O que podemos fazer é cuidar. Estar atentos. Aceitar a impermanência como condição, não como ameaça.

Desaprendemos também a dureza como estratégia de sobrevivência. Ser forte não é endurecer, é manter a sensibilidade apesar das perdas. É continuar disponível para o outro, mesmo quando o mundo insiste em nos fechar.

Talvez o mais difícil seja desaprender o medo de mudar. Meio século mostra-nos que mudar não é trair quem fomos, mas honrar a nossa capacidade de continuar vivos. A identidade não é uma essência fixa — é um movimento contínuo entre memória e transformação.

No fim, desaprender é um gesto de humildade.

É reconhecer que viver não é dominar o mundo, mas aprender a habitá-lo com mais cuidado, mais escuta e menos certezas.

Meio século obriga-nos a desaprender para continuar a compreender.

E talvez seja aí que começa uma forma mais profunda de sabedoria.


PB

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