Não duramos para sempre

 Aprendi cedo que a vida é breve. Que a viagem não é longa. E, ainda assim, passamos os dias como se tivéssemos um infinito à frente, esquecidos de que cada passo é emprestado, cada abraço é um pedaço do tempo que nos resta.

As pessoas entram e saem da nossa vida como navios na neblina. Algumas param, outras seguem, e nós muitas vezes nem percebemos. Só nos lembramos de olhar de verdade quando o adeus se anuncia silencioso, sem avisar. É então que sentimos o peso da ausência e o valor de cada instante desperdiçado.

Há um compromisso que ninguém nos ensina, mas que sentimos no fundo do peito: um pacto com a verdade, com o amor, com a vida que pulsa mesmo quando não prestamos atenção. Esse compromisso é simples e terrível: viver cada dia ao máximo, como se o amanhã fosse apenas uma hipótese, e não uma promessa. É escutar o outro, estar presente, tocar, abraçar, rir, falar e calar com cuidado.

O amor é urgente. Não aquele amor que se adia, que se guarda para datas ou ocasiões especiais, mas o amor que se entrega agora, que se oferece em pequenas coisas, no gesto, na atenção, no silêncio que entende o outro. Amar é perceber que o outro também passa, e que cada segundo de presença é um milagre silencioso.

E a felicidade? Ela não mora nos grandes feitos, nos planos perfeitos, nos lugares que nos prometem eternidade. Ela mora no instante, na conversa que se prolonga sem pressa, no café partilhado, no riso que nos escapa sem querer, no gesto que diz “vi-te” sem precisar de palavras. A felicidade é uma forma de coragem: a coragem de existir inteiramente, sabendo que a vida é efémera.

Quando olhamos para trás, quando os anos passam, percebemos que não levamos nada além do amor que demos e recebemos, da intensidade com que o sentimos, da atenção e ajuda que prestamos ao outro. O resto desfaz-se, perde-se, esquece-se. E então compreendemos que cada dia vivido de verdade é um triunfo, uma medalha silenciosa que ninguém vê, mas que sentimos no corpo inteiro.

Viver é aceitar a finitude e, mesmo assim, dançar, abraçar, tocar, rir, perdoar, amar. É fazer de cada instante um hino ao tempo que ainda temos. É deixar que o amor e a ternura nos encontrem antes que seja tarde. E, no fim, saber que passamos por aqui inteiros, ainda que por um breve instante, e que esse instante vale mais do que tudo.


PB

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