meu Porto
O Porto tem um modo próprio de existir, como se a cidade respirasse num ritmo que não se ensina e não se explica. Há dias em que as ruas parecem acordar mais cedo, acender-se em pequenas luzes delicadas, como se alguém tivesse semeado estrelas ao longo das fachadas. Não é preciso anunciar nada: basta caminhar. O ar transporta cheiros antigos nas esquinas, como o cheiro a castanhas assadas ou o cheiro a café, açúcar e canela saídos da Manteigaria, esse lugar onde o tempo abranda dentro de um pastel de nata. Aqui, tudo parece acontecer devagar, mesmo quando os passos são apressados.
Na Rua de Santa Catarina, o mundo passa em fila: montras, vozes, sacos nas mãos, olhares que se cruzam e se perdem. Os músicos de rua rasgam o ruído com melodias gastas pelo vento, e por instantes a cidade pára para escutar-se a si própria. Há algo de profundamente humano neste som que sobe das pedras — como se o Porto, ao ouvir-se, se reconhecesse.
Mais acima, nos Aliados, a grande árvore ergue-se como um farol feito de luz. Não impõe nada. Apenas está. E, ao estar, transforma o espaço — torna os passos mais lentos, os olhares mais demorados, os silêncios mais fundos. As pessoas não a contemplam: convivem com ela. Como se a beleza, aqui, fosse um hábito antigo.
O Porto é uma cidade que guarda mistério nas esquinas. As ruas de pedra não conduzem apenas a lugares, conduzem a estados de espírito. Há escadas que parecem levar ao passado, varandas que espreitam futuros possíveis, janelas onde a vida continua em segredo. Quem caminha por aqui nunca anda só: anda acompanhado de sombras suaves, de histórias suspensas no ar, de memórias que nem sempre são nossas, mas que aprendemos a carregar.
E há o rio. Sempre o rio. Um espelho lento onde a cidade se revê sem pressa. As luzes desfazem-se na água como pensamentos que já não doem. Ali, sentada numa esplanada, depois do jantar no restaurante de sempre, abro um livro e deixo-me ficar simplesmente. O Porto permite-nos isso: existir sem justificativa, ficar só por ficar.
É também aqui que regresso sempre que preciso de abrandar, de respirar com mais espaço dentro do peito, de me reencontrar quando o mundo me dispersa. Há sete anos que metade do meu coração mora nesta cidade, porque é aqui que o meu filho mora. E eu entendo-o quando diz com naturalidade que esta é a sua segunda casa, o seu lugar feliz. Talvez seja por isso que o Porto nunca me é estranho: acolhe-me como quem devolve algo. Como se me aconchegasse na saudade.
O Porto, na sua antiguidade mantém vivo o comércio simples e, apesar de ser uma cidade grande sabe manter as tradições e acolhe como ninguém. O Porto tem cheiro a maresia e a castanhas assadas e mesmo na azáfama de uma tarde de domingo a cidade não grita. Sussurra. Diz ao ouvido que ainda é possível ser inteiro, mesmo quando o mundo nos quer em pedaços. Ensina que a beleza não está no excesso, mas no que apendemos a conter, está na curva das ruas, na inclinação das casas, no modo como o inverno entra sem pedir licença e encontra sempre um copo quente à espera.
O Porto é feito de pessoas que sabem receber sem pretensões, de mesas partilhadas sem cerimónia, de gentilezas que não pedem fotografias. É uma cidade que não se oferece inteira a quem passa rápido. É preciso ficar. É preciso sentar. É preciso ouvir.
E quando no final do dia as ruas se enchem de luz, não é por aparência, é para nos lembrarem que a cidade também sabe sonhar acordada, porque o Porto não celebra o exterior: ilumina o que já existe dentro... e é tão bonito o que já existe dentro.
Comentários
Enviar um comentário