Marta.

Há mais de três décadas e meia que te conheço. Mais de trinta anos em que a minha vida se mede em momentos partilhados contigo, em histórias que se cruzam, em silêncios que só nós sabemos preencher. Mais de trinta anos em que foste o meu braço quando eu não tinha forças, a minha voz quando a minha falhava, a minha sombra e o meu abrigo quando o mundo parecia despir-me de tudo.

Lembro-me do dia em que perdi o meu pai. Lembro-me da dor que me arrancava o chão debaixo dos pés, do silêncio que me enchia os pulmões. E tu, sem hesitar, mudaste-te para minha casa. Choraste comigo, mas respeitaste cada instante do meu silêncio. Não falavas se eu não falasse. Mas estavas ali. Sentavas-te na beira da cama quando a insónia me arrancava aos lençóis e embalavas-me como quem embala uma criança a quem arrancaram o mundo. Não havia pressa, não havia palavras desnecessárias. Só havia presença. Só havia amor. Só havias tu.

Somos irmãs, filhas de outras mães, mas com laços mais profundos que qualquer sangue. Eu sou porque tu és. Tu és minha para sempre. E essa certeza atravessa o tempo, atravessa os dias, atravessa tudo. Nada nos afastou, nada nos levou, nem a vida, nem a distância, nem os silêncios longos e os caminhos que seguimos separadas. Nada. Porque o que temos é firme como raiz que se enterra na terra e se recusa a quebrar.

Hoje fazes anos e lembro-te ainda mais. O teu riso que me contagia, as tuas gargalhadas sonoras e o facto de seres uma força da natureza, uma tempestade de luz que nos arrasta para os melhores lugares e nos lembra que tudo vale a pena enquanto houver alegria. Admiro a tua capacidade de te reinventares sempre, a tua curiosidade pelo mundo, a tua rebeldia de viver, de perguntar, de desafiar, de tocar tudo e todos com intensidade, de rir mesmo quando a vida te dói. És inteira, sem pedir licença, sem esperar aprovação, e isso é a tua beleza mais rara.

Lembro-me das tuas mãos dadas nas minhas desde sempre, do dia em que nos conhecêssemos e jamais nos largámos, das tuas histórias loucas, da forma como sempre me escutas sem pressa e da forma como me olhas. Lembro-me de cada momento que passámos juntas, de cada pequena loucura que transformámos em memória, de cada palavra dita ao acaso que se tornou sagrada entre nós.

Marta, minha irmã Marta, hoje, de modo especial, desejo-te toda a felicidade que este mundo pode oferecer. Que a vida te devolva toda a ternura, toda a força, toda a coragem e toda a alegria que ofereces a cada um que tem a sorte de te conhecer. Que te surpreenda com caminhos inesperados, com encontros felizes, com gargalhadas que ecoem no teu coração com a mesma força com que as tuas ecoam em nós. Que sejas feliz, sempre, e que saibas que, em qualquer instante, em qualquer lugar, estarei aqui, como tu sempre estiveste por mim.

Porque existir contigo é ter um lugar seguro no mundo. E ter-te é um presente que nenhum tempo, nenhuma circunstância, jamais poderá roubar.

Somos irmãs de alma, Marta. Filhas de outras mães, mas unidas para sempre. E neste fio invisível que nos liga, neste amor silencioso e feroz, sei que a minha vida tem mais sentido porque tu existes.


PB

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