Manhã no Porto
Acordar no Porto é como acordar dentro de um segredo antigo. A chuva cai devagar, como se tivesse cuidado com as pedras. Há uma neblina leve, quase tímida, que sobe do Douro e entra pelas ruas estreitas, envolvendo tudo numa espécie de silêncio molhado.
Abro a janela e respiro a Ribeira. Não se respira só ar — respira-se gente, história, café quente, roupa húmida nos estendais, pão a nascer nos fornos. Respira-se a cidade como quem respira alguém que se ama. Os prédios antigos inclinam-se uns sobre os outros, cansados mas fiéis. Têm rugas de muitos séculos e janelas que já viram quase tudo. As fachadas descascadas não são feridas, são memórias. E cada pedra parece guardar um nome que já não sabemos dizer. As gaivotas riscam a neblina com gritos de sal. São cartas lançadas no ar entre o rio e o céu.
O Douro passa lá em baixo com a paciência de quem sabe esperar. Leva o reflexo da cidade, devolve-o partido em água.
Caminho devagar. No Porto anda-se devagar sem pedir desculpa. As pessoas olham-nos como quem reconhece. Há um bom-dia que aquece mais do que qualquer sol. Há um gesto simples que parece dizer: entra, mesmo que ainda não saibas ao que vens.
Chove, mas a chuva aqui não afasta — aproxima. Junta os passos, encurta as distâncias, une os guarda-chuvas como se fossem pequenas casas provisórias. Tudo fica mais próximo quando o céu desce. E eu fico assim, dentro da manhã, entre a neblina e o rio, entre o grito das gaivotas e o murmúrio da cidade, a pensar que há lugares que não se visitam: há lugares que nos adotam.
E o Porto, mesmo em dias de chuva, mesmo em silêncio, mesmo nos seus tons cinza, faz isso... adota-nos
PB
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