Faz dez anos que o medo me tocou à porta. Não entrou de rompante. Não partiu vidros, não gritou o meu nome, não fez escândalo. Chegou discreto, vestido de consulta de rotina, com aquele ar administrativo das coisas que mudam a vida sem pedir licença. Entrou pela voz de um médico, por uma expressão mais séria, por uma sequência de exames que de repente passaram a ter nomes grandes: biópsias, TACs, eletrocardiogramas, análises, relatórios, esperas. A vida, às vezes, vira-se do avesso num gabinete. Num momento estamos inteiras, ocupadas, atrasadas, cheias de tarefas, filhos, aulas, explicações, trabalhos, contas, mensagens por responder. No momento seguinte, percebemos que o corpo, esse companheiro silencioso que damos por garantido, pode tornar-se notícia. Pode falhar. Pode assustar-nos. Pode lembrar-nos, de forma brutal, que não somos imortais. Havia uma corda vocal em perigo. Havia nódulos na tiróide. Havia uma operação marcada de urgência no IPO de Coimbra. Havia filho...
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