Há uma época do ano — sempre a mesma, sempre teimosa — em que a escola ganha um cheiro a nervos. Não é bem suor, nem é bem medo. É um aroma que mistura noites mal dormidas, silêncio acumulado e a estranha sensação de que o futuro está em promoção e só hoje se pode comprá-lo.
Os meus alunos chegam diferentes. Como se tivessem crescido às pressas, ou encolhido sem dar por isso.
Alguns entram na sala com o ar de quem carregou o planeta inteiro às costas no caminho até à escola. Outros olham para as folhas como quem olha para uma porta com um monstro atrás — e a chave na mão trémula.
A época dos testes é isto: uma espécie de febre académica, onde todos tentam parecer saudáveis enquanto ardem por dentro.
O mundo académico, esse, tem uma pontaria terrível para aumentar a temperatura. Não sabe o que é “suficiente”. Acredita que mais é sempre melhor, que descanso é desperdício e que o valor de alguém pode caber numa grelha de critérios, como se as pessoas fossem tabelas de Excel com margem de erro mínima.
E os alunos, ainda tão novos, tão verdes de vida, aprendem cedo a arte antiga de parecerem fortes.
É a primeira grande máscara que lhes pedimos:
“Mostra que controlas.”
“Mostra que sabes.”
“Mostra que és capaz.”
Como se o mundo estivesse pronto para os devorar ao mínimo vacilo.
Mas eu vejo quando os olhos escorregam, quando a mão falha, quando a respiração hesita.
A ansiedade deles não tem vergonha. Senta-se ao lado, põe os pés em cima da mesa e coça o queixo com ar crítico, como um examinador sem alma.
E sussurra:
— Não falhes. Não falhes. Não falhes.
Até o pensamento ficar estreito demais para caber qualquer esperança.
Há dias em que penso que a escola, sem querer, se tornou uma fábrica de urgências.
Urgência de saber.
Urgência de não dececionar.
Urgência de provar que se merece existir naquele espaço que insiste em medir, pesar, comparar.
E pergunto-me, em silêncio:
quem é que mede a urgência de viver?
Porque vejo alunos a perderem o riso para ganhar décimas,
a trocarem tardes de sol por páginas de manuais,
a sacrificarem a paz para satisfazer rubricas inventadas por adultos que já se esqueceram de como era ser criança à beira do abismo.
E depois, há aqueles minutos preciosos.
Os minutos em que o teste acaba.
Em que levantam os olhos, cansados mas vivos,
como quem regressa de uma batalha que não devia ter existido.
É nesse instante — sempre nesse — que eles mostram quem são sem a máscara: vulneráveis, esgotados, maravilhosamente humanos.
Eu gostava que o mundo académico os visse assim.
Não como números, médias ou projeções estatísticas.
Mas como o que realmente são:
miúdos que tentam, com a coragem possível, sobreviver a um sistema que fala em excelência mas se esquece de cuidar.
No fundo, queria que a escola fosse mais casa e menos tribunal.
Mais lugar de encontro e menos campo de provas.
Mais aprendizagem e menos medição.
Mas até lá chegar, vou continuando: sento-me com eles no silêncio, recolho os pedaços que a ansiedade partiu, e digo-lhes — às vezes sem palavras — que o seu valor é enorme e não cabe na folha que têm à frente.
E que, mesmo quando o mundo lhes exige tudo, eles não têm de se perder para passar.
Porque no fim, depois de tantos testes e tantos medos, a única nota que realmente importa é a que damos a nós próprios:
a consciência tranquila de ter resistido, mesmo quando o coração tremia.
PB
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