Diário

Acordo quando a cidade ainda dorme, quando o mundo inteiro parece seguro entre o sonho e a manhã. O corpo ainda pede mais silêncio, mas a mente já desperta, inquieta, carregada de pequenas urgências e grandes responsabilidades. Há uma disciplina delicada nesse levantar cedo demais, um pacto silencioso comigo mesma: estar inteira para o que virá, para os que virão, para o que não pode esperar.

Às 8h já estou pronta. Pronta para ensinar, para motivar, para mostrar que a matemática não é apenas números, fórmulas ou provas. É lógica, é vida, é a forma de compreender que cada erro é um passo, cada dúvida um portal, cada descoberta uma ponte. É mais do que números; é coragem, é persistência, é aprender a acreditar.

O dia estende-se, longo, intenso, sem pausas aparentes. De segunda a sábado, atravesso horas que parecem infinitas, carregando comigo não apenas livros e cadernos, mas histórias, medos, segredos, sonhos. Cada aluno é uma equação diferente, cheia de incógnitas e possibilidades. Às vezes simples, às vezes impossível de decifrar. Mas é nesse desafio que encontro sentido: não ensinar apenas matemática, mas ensinar a viver, a lidar com o que não se vê, a descobrir forças que nem sabíamos ter.

Há cansaço, é verdade. E o corpo reclama, os olhos pesam, os minutos parecem arrastar-se. Mas o cansaço não me destrói. Há um orgulho silencioso em estar presente, um brio em fazer a diferença, em segurar com ternura cada instante, cada mão, cada olhar. A alegria mora nos detalhes: no brilho que surge quando entendem, na palavra que chega tímida, no sorriso que hesita, mas se abre. A felicidade esconde-se nesses pequenos gestos, nesses instantes delicados que ninguém mais vê.

E quando tocam a campainha ou ligam a pedir vaga, olho para a folha de horários e o coração aperta. Onde vai caber mais um? onde vão existir mais horas no meu já de si longo dia? Mas a verdade é que, apesar do horário cheio e da falta de tempo, arranjo sempre lugar para mais um. Porque há sempre um aluno que precisa de mais atenção, mais tempo, um cuidado meu, e eu não sei dizer que não (ou quando digo é com muita dificuldade). E é aí que de repente, o improvável acontece: eu estico as horas e o meu horário, e acolho mais um: na minha sala, na minha vida, na minha vontade infinita de acreditar que é possível fazer a diferença na vida de alguém. Acolher mais um é aprender que a vida é generosa quando somos generosos também, que todo o gesto de cuidado se multiplica, que cada presença é uma oportunidade que tenho de ajudar alguém e de que, ao fazê-lo, posso mudar um pouco o mundo também.

E quando o dia termina, a vontade não se encerra. Chego a casa cansada, mas completa. O corpo pesa, mas a alma sorri, e o silêncio da casa não é o fim do dia; é apenas uma pausa, um intervalo entre hoje e amanhã. Há um fio invisível que liga o final de hoje ao começo de amanhã, e sei que voltarei a levantar-me cedíssimo, a estar pronta, a ensinar, a escutar, a sorrir, a sentir.

Porque a vida que escolhi não tem folgas, mas tem plenitude. Ensinar, acolher, motivar, inspirar: tudo isso me dá combustível. Cada dia é longo, intenso, às vezes exaustivo, mas no fim de cada jornada há uma felicidade silenciosa, profunda, inteira. Uma felicidade que não depende de descanso, mas de propósito.

E assim, cada noite fecha apenas para que a manhã seguinte abra a porta novamente. Cada dia termina para que eu possa continuar, inteira, dedicada, presente. E é nesse movimento constante — acordar, ensinar, caminhar, sorrir, cansar, recomeçar — que encontro o verdadeiro sentido da minha vida: viver inteira, amar o que faço, tocar vidas, e saber que, amanhã, posso fazer tudo outra vez. 


PB

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