Dar é uma arte que se aprende tarde.

Dar é uma arte que se aprende tarde.

Durante anos acreditamos que oferecer é escolher o presente certo — quando, na verdade, é escolher o gesto certo. Porque o dom de dar não está no embrulho, mas na atenção. É saber ver o outro, com uma clareza suave que se aprende a ter apenas com o tempo: reparar no perfume que ele usa, na cor que acalma a sua alma, no livro que mencionou de passagem e nunca comprou. Dar é lembrar. E lembrar é amar com memória.

O presente perfeito não precisa de preço. Precisa de intenção. Precisa de um silêncio que se faz sentir, de uma paciência que toca sem ferir. Um bolo de chocolate ainda morno, uma carta escrita à mão, bolachas de gengibre ou uma flor apanhada no caminho — tudo o que carrega tempo carrega valor. Pois o tempo é o mais raro dos luxos, e oferecê-lo é uma revolução silenciosa.

Há quem diga que o Natal é um ritual de consumo. Talvez. Mas para alguns de nós, é um ritual de presença: escolher, com calma, aquilo que tem sentido. Escolher como quem respira devagar, como quem olha para dentro e depois para fora. Porque o luxo verdadeiro não está nas vitrines nem nos preços, mas no cuidado — e o cuidado, quando é sincero, não cabe em etiquetas.

Gosto de pensar que dar é o modo mais silencioso de dizer: “vi-te”. E ser visto — de verdade — é o presente mais raro que existe. É como se o mundo, na sua pressa, pudesse esquecer que cada coração tem a sua música, e nós, com pequenos gestos, recordamos isso: que alguém existe e importa.

Por isso, quando o mundo apressa o Natal, eu desacelero. Prefiro dar menos, mas dar melhor. Escolher com amor, até o papel de embrulho, até o gesto de colocar uma fita de veludo na cor certa. Dar o que fica depois da surpresa: tempo, escuta, ternura, uma memória que se aninha no peito e se aquece sozinha.

E talvez seja isso: dar é cultivar jardins invisíveis dentro das pessoas. É plantar sementes de cuidado que florescem anos depois, em silêncio, sem alarde. É um ato de poesia, de filosofia e de gentileza. Um ato de amor que não exige retorno, mas transforma quem dá, e quem recebe, de formas que nem sempre se podem nomear.

Dar é aprender a habitar a vida do outro, mesmo que por instantes, e descobrir que nesse habitar, descobrimos também a nós mesmos.

Feliz Natal a todos os que passam por aqui 🥰💕

PB

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