Carta-Poema ao Meu Pai
Pai,
Há coisas que nunca te disse — não por falta de amor, mas porque acreditei, como todas as crianças acreditam, que teríamos tempo. Muito tempo. Tempo para repetir o que sentíamos. Tempo para conversas longas. Tempo para abraços demorados. Tempo para tudo aquilo que agora vive apenas na minha memória.
Eu sempre te disse que gostava muito de ti. Lembro-me dessas palavras, lembro-me do meu coração pequeno a tentar caber dentro delas. Mas hoje pergunto-me: será que as disse vezes suficientes?
Disse-as nos dias certos?
Disse-as com a força com que as sentia?
Tenho medo que o tempo tenha sido curto demais para que o amor chegasse inteiro até ti.
Pedi a tua mão, pai — tantas vezes.
Pedi o teu colo nos dias em que o mundo parecia grande demais para mim.
Mas agora sei que pedi pouco. Não porque eu não quisesse mais, mas porque tu partiste cedo demais para que eu pudesse pedir tudo o que precisava. E eu não sabia. Não sabia que a vida te levaria de mim tão rápido.
Para trás ficaram muitos silêncios, não por falta de palavras, mas porque a vida nos apanhou desprevenidos. Há coisas que deveriam ter sido ditas ao amanhecer e outras ao cair da noite — e todas ficaram presas na garganta, guardadas como se o amanhã fosse um lugar garantido. Mas amanhã não veio para nós.
A vida roubou-te antes de eu perceber que o tempo não é infinito. E então cresci com este silêncio, enorme, pesado, cheio de tudo o que não disse. Um silêncio que aprendi a carregar, como se carregasse uma herança invisível. Um silêncio onde vivem as conversas que não tivemos e as perguntas que nunca fiz.
Há dias em que esse silêncio dói como se ainda fosse hoje. Há dias em que dói menos, como se finalmente estivesse a aprender a respirar com ele.
Mas há também uma luz. Uma espécie de claridade que só nasce de quem perdeu cedo demais.
É ela que me diz para falar quando importa, para abraçar enquanto posso, para dizer “gosto de ti” antes que o medo invente desculpas.
É ela que me lembra que o amor não dito não deixa de ser amor — apenas se transforma noutra coisa: memória, saudade, presença sem corpo.
Pai, onde quer que estejas, levo-te comigo. Levo o que disse. Levo o que não disse. Levo o que tentei dizer.
E levo também esta carta, que nunca chegará às tuas mãos, mas que chega, finalmente, à minha coragem.
Se não te disse tudo o que queria, porque a vida te levou cedo demais de mim, digo agora:
amor nenhum morre com a ausência. O teu vive em mim: inteiro, silencioso, permanente.
PB
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