Carta à minha geração

Aprendemos cedo demais a correr, como se o tempo fosse um animal em fuga. Disseram-nos que havia prazos para tudo: para o sucesso, para a felicidade, para nos tornarmos alguém. Que parar era um erro de cálculo, quase uma falha moral. Crescemos a acreditar que a vida se cumpria numa lista — e que ficar para trás era uma forma de desaparecimento.

Somos a geração que acumula informação e perde contacto consigo mesma. Sabemos um pouco de tudo, mas raramente sabemos como estamos. Falamos de saúde mental com a linguagem do progresso, mas continuamos a glorificar o cansaço. Defendemos o descanso, mas sentimos culpa quando descansamos. Vivemos ligados a redes infinitas e, paradoxalmente, cada vez mais desligados de nós, dos outros, do tempo.

Ensinaram-nos que o esforço bastava. Que querer era poder. Que a meritocracia organizava o mundo como uma equação justa. Esqueceram-se, porém, de falar dos pontos de partida desiguais, das heranças invisíveis, das fragilidades transmitidas em silêncio. Há lutas que não aparecem nos currículos, nem cabem em fotografias bem iluminadas.

Somos a geração que regista tudo, talvez por medo do esquecimento, talvez por medo de não ter existido. Fotografamos o prato antes da conversa, o pôr do sol antes do silêncio. Como se a vida precisasse de testemunhas para ser real. Como se existir fosse sinónimo de ser visto.

Carregamos a ansiedade como um ruído de fundo constante. O receio de não sermos suficientes, de chegarmos tarde, de escolhermos mal. Procuramos sentido, mas aceitamos o que garante sobrevivência e promete não nos consumir por inteiro — ainda que, quase sempre, consuma. Habitamos um mundo que exige velocidade, clareza e sucesso, quando somos feitos de dúvida, lentidão e contradição.

E, ainda assim, há beleza em nós. Questionamos o que nos foi dado como certo. Falamos do que antes era escondido. Tentamos romper ciclos sem mapa, conscientes de que errar faz parte do caminho. Somos frágeis, mas atentos. Inseguros, mas despertos. Talvez seja aqui que começa qualquer possibilidade de mudança.

Talvez a nossa maior revolução seja reaprender a complexidade. Abrir espaço para a lentidão, para a escuta, para o cuidado. Viver menos para mostrar e mais para compreender. Aceitar que o sucesso não é um lugar fixo, que a felicidade não é permanente, e que a incerteza não é um defeito — é condição humana.

Que possamos ser a geração que escolhe a empatia em vez da comparação. Que compreende que ninguém dá conta de tudo sozinho. Que percebe, finalmente, que viver não é produzir nem representar, mas relacionar-se — consigo, com os outros, com o mundo.

Com esperança,
alguém que caminha ao vosso lado, não à frente

PB

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