As pessoas que perdi
As pessoas que perdi não morreram. Apenas se mudaram para dentro de mim, onde o tempo não sabe mandar. Vêm e vão, como o vento que aprende caminhos pelos cheiros.
O meu pai, por exemplo, ainda vive na forma como o dia amanhece. Quando o sol toca a janela, é ele quem me abre os olhos. O seu riso ainda mora nos meus gestos, nas frases que digo igual a ele, no modo como o meu ombro direito descai quando caminho - tal como o dele, ou na minha paixão pelo natal que me recorda o quanto ele era feliz nesta época.
Dizem que o tempo cura, mas o tempo é apenas um jardineiro distraído: deixa crescer a erva da saudade sobre o túmulo do esquecimento. E eu, que tanto quis esquecer, acabo sempre por regar a lembrança.
Há dias em que a ausência dele pesa como pedra, outros em que se faz leve como poeira de estrelas.
Mas nunca desaparece por completo.
A saudade é uma ferida que floresce — sangra e dá flor no mesmo lugar. Fiquei mais sozinha quando te foste.
Mas a solidão é uma casa onde moram ecos. Cada silêncio tem a voz de quem partiu. Cada sombra é um abraço por acabar.
Os que morreram deixaram-me um mapa sem norte, e nele aprendo a caminhar com os pés descalços no tempo, ouvindo o chão murmurar os nomes que já não se dizem.
E, apesar dos anos que me crescem nas costas, a saudade ainda dói — dói como um amor que não sabe morrer.
PB
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