As pessoas da minha rua

Gosto da rua onde trabalho e onde chego, todos os dias, muito cedo. Gosto dos meus passos que ecoam nas pedras, da luz que entra pelas janelas abertas da Academia, dos cheiros que se misturam no ar: pão quente, café acabado de fazer e o bolo do dia no café de sempre. 

É aqui, entre estas paredes e ruas, que encontro a vida em pequenas doses, e ela nunca deixa de me surpreender. Como a Sara e a Juliana que, como luz constante, me trazem o café e o pão com queijo do costume, mas acompanhado de um sorriso sincero e sem esforço. Não é só café. É amizade, atenção e presença. Um gesto tão simples: um “bom dia”, um café servido, um olhar que nos percebe  e o meu dia transforma-se. Gosto delas. Gosto da calma que me trazem e do espaço que foram ocupando na minha vida sem perceberem. E é nesses detalhes simples que descubro a beleza do meu quotidiano: sou feliz na rua onde trabalho há mais de 20 anos, com as pessoas de sempre  e com as que fui somando e acrescentando ao meu dia-a-dia, como as senhoras da loja de baixo, que cuidam da minha roupa com cuidado e de forma meticulosa tornando a minha semana mais fácil. Acho que elas nem sabem o quanto tornam os meus dias mais leves e mais possíveis. Como, se no cuidado com que tratam da minha roupa, cuidassem também de mim. 

Todas as pessoas da minha rua têm um papel importante na minha vida. Cada uma à sua maneira, cada uma com a sua generosidade. Aos poucos vêm e vão ficando, como a Joaninha que me arranja as unhas, que aos poucos me foi conquistando e de quem já sinto saudades quando não a vejo, a Joana com quem converso sobre tudo e que transforma cada momento de cuidado num pequeno refúgio de cumplicidade, onde a vida se revela em palavras simples, em histórias que se cruzam entre nós e se completam. 

Sou uma pessoa de constância e permanência. Gosto dos lugares de sempre com as minhas pessoas do costume. Não gosto de mudar de sítio. Onde sou feliz fico. Por isso, gosto tanto das pessoas da minha rua, das que chegaram há pouco tempo à minha vida e das que já cá vivem há tantos anos que já lhes perdi a conta, como a Berta. Sei que vivo a correr e o meu tempo é gerido ao milímetro, mas ainda assim gosto de parar, mesmo que só por um instante, para lhes dizer bom dia, para conversar com elas, para sentir a presença de quem partilhou comigo pedaços da minha juventude e com quem apenas agora chegou aos meus dias.

A vida é feita destes pequenos instantes e destes momentos simples. A minha vida é feita de encontros com as pessoas que gosto de ver todos os dias, como a Cila e a D. Lena, com quem gosto de me sentar, mesmo que por minutos, para ouvir e partilhar, para sentir que a vida se torna mais rica quando se divide. Aprendo sempre muito com elas. Rimos, contamos dores, celebramos alegrias pequenas e grandes, e no meio dessas conversas vejo o tempo suspenso, a vida que pulsa e o carinho que lhes tenho.

No fundo, a magia está aqui, nos lugares pequenos, nos gestos simples, no dia-a-dia, no sorriso de quem nos percebe, no gesto de quem nos simplifica a vida, na rua que nos acolhe mesmo quando corremos sem parar.

O extraordinário não precisa de gritos nem de luzes fortes. Ele mora nos detalhes, nas memórias que guardamos, nas pessoas que tornam cada dia mais humano, mais leve, mais bonito. E assim descubro que a vida, mesmo na sua rotina, pode ser leve. Que cada café, cada conversa, cada gesto de cuidado, seja de quem cuida das minhas mãos ou da minha roupa, é um fio invisível que me liga ao mundo e ao coração das pessoas que me acompanham diariamente. Que a gratidão e a atenção são as cores que transformam o comum em extraordinário. E que, por mais que os dias sejam corridos, é nesse olhar, nesses gestos, nesses instantes de presença que encontro a verdadeira magia dos lugares pequenos e do que neles vamos construindo devagarinho: a permanência, a amizade, o carinho e a gratidão que lhes tenho por serem presença assídua e verdadeira na minha vida.


PB

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