Aprender a gostar da pessoa que somos

Há um momento na vida em que percebemos que gostar de nós não é um acontecimento repentino. É um processo lento, imperfeito e às vezes cansativo. Quase nunca é bonito no início. Crescemos a ouvir que devemos ser fortes, seguros, brilhantes. Mas ninguém nos explica o que fazer com as nossas falhas, com o peso do passado, com as pequenas dores que se instalam nos cantos do peito e ficam lá, silenciosas.

Aprender a gostar de si mesmo é encarar essas dores sem fugir. É olhar para dentro com uma honestidade que assusta, e, mesmo assim, continuar. Um passo de cada vez, como quem atravessa um rio incerto, confiando que as pedras vão aparecer à medida que caminhamos.

O mundo cobra-nos demasiado. Exige-nos perfeição, rapidez, produtividade, leveza, beleza, calma. E exige que sejamos tudo isto ao mesmo tempo. E é fácil acreditar que não somos capazes, ou que não seremos suficientes, quando comparamos as nossas dúvidas com as certezas que os outros exibem. Mas o amor-próprio começa exatamente aí: no instante em que percebemos que não temos de corresponder a todas as expectativas. Que não precisamos agradar a todos. Que ninguém — absolutamente ninguém — vive sem medo ou sem falhas.

Todos temos falhas e cicatrizes, e as cicatrizes que carregamos não são provas de fragilidade. São, na verdade, mapas. Marcas de capítulos em que sobrevivemos, lembranças do que fomos e do que conseguimos reconstruir. Para mim cada cicatriz conta uma história de resistência e são elas que nos tornam reais, mais humanos e pessoas possíveis de existir neste mundo cada dia mais louco.

E talvez seja isso: o amor-próprio é a coragem de olhar para as nossas cicatrizes com menos vergonha e mais ternura. É perceber que não precisamos de nos arranjar de modo perfeito para sermos dignos de amor — especialmente do nosso. É aceitar que algumas partes de nós ainda estão em construção, e que isso não nos diminui, só nos acrescenta. Porque há uma beleza, muito digna, em quem se reconstrói diariamente no meio do caos e uma força extraordinária, mesmo que às vezes pareça invisível, em quem aprende, ainda que devagar, a tratar-se com gentileza. E um dia, um dia qualquer, e sem aviso, percebemos que o que antes doía já não dói tanto. Que aquilo que escondíamos e temíamos já não nos assusta. E que, de alguma forma, nos aceitamos como somos e nos tornámos casa para nós mesmos.

Por isso o amor-próprio não é um destino: é um caminho. Um caminho cheio de curvas e hesitações, mas também cheio de luz. E cada cicatriz e imperfeição é apenas uma prova bonita de que continuámos firmemente o nosso caminho e que nunca desistimos de nós.


PB

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