Aprender a confiar

Confiar é uma das coisas mais difíceis que vamos aprender na adolescência. Porque é nessa fase que o mundo começa a mostrar que nem todas as promessas se cumprem, que nem todas as pessoas ficam, que nem todo carinho vem sem risco. Confiar passa a ser uma escolha, não uma certeza.

No início, confiamos rápido. Acreditamos nas palavras, nos gestos, nas mensagens enviadas de madrugada. Confiamos como quem entrega um segredo sem pensar duas vezes. Depois vem o primeiro tombo. A primeira quebra. E de repente o coração aprende uma defesa nova: o medo. A partir daí, cada nova confiança vem com cautela, como quem atravessa a rua olhando mil vezes para os dois lados.

Confiar é entregar a alguém uma parte de nós que ainda está em construção. É dizer “isto é importante para mim” sem saber se o outro vai respeitar. É aceitar que, por mais que tentemos controlar, nunca teremos garantias totais. E talvez seja isso que torna a confiança tão valiosa: ela não é automática, é escolhida.

Muitos acham que confiar é ser fraco. Mas é exatamente o contrário. É preciso muita força para continuar a acreditar depois de uma desilusão. É preciso coragem para não deixar que um erro vire uma regra. Confiar de novo é dizer ao medo: “tu não mandas em mim”.

Quando a confiança existe, o mundo fica um pouco mais leve. O riso sai mais fácil. O silêncio deixa de assustar. Os problemas parecem mais pequenos quando temos com quem partilhá-los. Confiar é não ter de fingir o tempo todo. É poder ser imperfeito sem medo de ser abandonado por isso.

E mesmo quando a confiança se quebra, ela deixa uma marca importante: a prova de que fomos capazes de acreditar. E isso ninguém nos tira. Porque confiar não fala apenas do outro — fala de quem somos, do tipo de pessoa que escolhemos ser num mundo que nem sempre é justo.

Talvez crescer seja isso: aprender a confiar com cuidado, mas sem fechar o coração. Aprender que nem toda mão estendida vai ferir. Algumas existem apenas para segurar.


PB

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