A Manhã de 25
O meu Natal começa quando o dia ainda é tímido.
Não à meia-noite, mas na manhã de 25 — quando a casa desperta devagar, entre o cheiro a canela e o som dos passos descalços no chão.
Há borboletas no meu estômago. Sempre.
Não pela surpresa do que vou receber, mas pela alegria de ver os outros abrir — esse instante quase infantil em que o mundo cabe num sorriso.
Gosto de observar as expressões, o brilho que nasce nos olhos antes mesmo de o papel ceder.
É um momento breve, mas nele cabe todo o sentido do Natal.
Escolho cada presente como quem escreve uma carta.
Penso em cada pessoa — no que precisa, no que deseja, no que nem sabia que queria até ao momento certo de desembrulhar.
Para mim, o amor mora nesses detalhes silenciosos: o perfume certo, o livro certo, o gesto certo.
É assim que digo “amo-te”, sem precisar dizê-lo.
Aprendi isso cedo.
Aprendi com o meu pai que dar é um verbo maior do que receber.
Não porque receber não seja bom — é, todos gostamos — mas porque dar ensina outra coisa: atenção, escuta, entrega.
O meu pai dava como quem semeia, sem esperar colheita imediata, certo de que alguma coisa boa haveria de crescer.
Talvez por isso hoje eu sinta esta alegria quase física ao ver os meus filhos.
O espanto na cara deles, esse “ohhhhh…” prolongado que enche a sala e me atravessa o peito.
A gratidão no olhar, ainda antes das palavras.
Cada reação toca-me o coração de mil formas diferentes — como se cada surpresa fosse também um presente que me é devolvido.
A minha mãe, os meus filhos, o Rafael e esse amor que se prolonga neles — todos à volta, ainda meio sonolentos, a rir, a agradecer, a existir.
A casa parece respirar em uníssono.
Por uns minutos, o tempo abranda, e tudo o que importa está aqui: a presença, o riso, o calor.
Há quem diga que o Natal é feito de rituais.
O meu é este: acordar cedo para ver a alegria dos outros.
Dar antes de receber.
Oferecer antes de abrir.
E, nesse instante, sentir-me em paz — como se cada presente abrisse também uma janela dentro de mim.
Porque o verdadeiro presente é esse:
ver o amor acontecer, embrulhado em papel, rasgado em riso, devolvido em abraço.
PB
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