Wi-fi emocional

Às vezes a vida parece uma sala cheia de gente ligada ao mesmo Wi-Fi: todos com o ecrã aceso, mas quase ninguém realmente a olhar nos olhos.

É estranho, não é? Estarmos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão sozinhos.

Vivemos cercados de notificações, mensagens, stories e feeds que se atualizam sem parar. E, no meio de tanto som e luz, há um silêncio que ninguém comenta: o da ausência real de presença. Estamos juntos, mas distraídos. Falamos, mas não escutamos. Partilhamos tudo — menos o que sentimos de verdade.

Há amizades que são sinal forte: mesmo à distância, não precisam de muitas palavras para funcionar. São aquelas que resistem ao tempo, às falhas de rede e até às pausas mais longas. Basta uma mensagem simples — “estás bem?” — para que tudo volte a fazer sentido.

Depois há aquelas que parecem instáveis: prometem muito, mas estão sempre a cair no momento em que mais precisamos. São ligações com senha fraca — cheias de interferências, ruídos e promessas por cumprir. Às vezes ficamos ali, a tentar reconectar, mesmo sabendo que a rede já não tem cobertura.

E existem também os “crush-hotspot”: intensos, rápidos, fazem-nos sentir que temos o mundo inteiro no bolso… mas, de repente, gastam todos os nossos dados e deixam-nos no vazio. São conexões de alto consumo emocional — dão-nos uma sensação de infinito, até que o ecrã apaga e percebemos que ficámos sem bateria.

Mas talvez crescer seja isto: aprender a distinguir redes falsas de conexões verdadeiras. Perceber que nem toda a mensagem lida é compreendida, que nem todo o “like” é afeto, e que estar disponível não é o mesmo que estar presente.

Aprender que há pessoas que valem a pena desligar o mundo para ouvir. E outras que só fazem barulho na linha, mas nunca realmente se conectam.

Perceber que não vale a pena estar sempre à procura de sinal nos lugares errados, porque às vezes o que precisamos mesmo é do silêncio de estar offline.
De fechar as abas abertas na mente, silenciar as notificações da alma, e respirar — só respirar — sem ter de responder a nada.

E se calhar é nesse modo avião — quando desligamos o barulho e pousamos o telemóvel — que encontramos a ligação mais estável de todas: a que temos connosco.
Aquela que não precisa de Wi-Fi, nem de rede, nem de aprovação.
Aquela que nos devolve a nós mesmos, sem filtros, sem stories, sem performance.

Porque ninguém nos pode roubar a senha do nosso próprio coração.
E talvez seja essa a verdadeira conexão: estar ligado por dentro, mesmo quando o mundo inteiro está offline.

PB

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