Quase Dezembro

Dezembro chega como uma brisa lenta, trazendo consigo o perfume das folhas secas, do chão molhado e da luz que se torna tímida antes do inverno. Mas para mim, o fim do ano não se mede pelo calendário; ele acontece no outono, na viragem entre setembro e outubro, quando o mundo começa a despir-se de cores e se prepara para descansar. É nesse momento que faço o meu balanço, silencioso e profundo, enquanto a natureza me ensina a contemplar o que passou e a alinhar o que está por vir.

Os antigos celtas diziam que cada estação tinha os seus rituais e mistérios, que o tempo não era uma linha reta, mas um círculo contínuo de vida, morte e renascimento. E é assim que observo Dezembro: não como recomeço, mas como um espaço de silêncio e reflexão, onde a luz curta do dia e o vento frio me convidam a ouvir minhas próprias sombras e memórias. Cada folha caída é um ensinamento: deixar ir o velho para que o novo possa vir, e cada árvore despida, uma lição de resistência e humildade.

Ainda assim, há magia neste mês. Há uma beleza silenciosa nos dias curtos, nas ruas iluminadas com luzes que tremem, nos cheiros de madeira queimada e de chá quente. Há um encanto discreto nas mãos que seguram copos fumegantes, nos livros que guardam histórias, nos pequenos rituais que nos lembram que a vida continua, mesmo quando tudo parece lento e quase parado.

E é também nas vésperas de Dezembro que a minha casa se enche de uma magia antiga. Hoje dia 30 de novembro, como quem abre um portal de memórias e afetos, ergueu-se a árvore de Natal — ritual que se repete há tantos anos que já se confunde com o próprio tempo. Cada enfeite é uma lembrança, cada luz uma prece silenciosa. Há algo de sagrado nesse gesto: o desenrolar do fio das luzes, o cheiro das caixas guardadas com cuidado, as mãos que penduram as bolas e os enfeites favoritos dos meus filhos como quem tece histórias no ar. Nesse instante, o tempo suspende-se, e o espírito da casa muda — como se os antepassados viessem espreitar pelas janelas, sorrindo, reconhecendo o milagre da continuidade.

Dezembro ensina-me assim que não é preciso começar planos em janeiro. Que o verdadeiro recomeço acontece quando o corpo e a alma estão prontos, quando a natureza ensina a ordem dos ciclos e nos lembra que há um tempo para morrer e um tempo para renascer, um tempo para soltar e um tempo para plantar. É o outono que me dá o presente do equilíbrio: olhar para o que passou, sentir o peso e a beleza do que foi vivido, e preparar o coração para a primavera que virá, com tudo a florescer de novo.

E assim, entre luzes que piscam e silêncios longos, que aguardo por Dezembro que, devagarinho se torna o guardião do meu tempo íntimo, um espaço para perceber que o fim e o começo estão sempre juntos, que a vida é feita de ciclos, e que a magia mora nos detalhes, nas cores que mudam, nos ventos que passam e nos corações que aprendem a esperar.

Há algo de mágico em tudo isto — nesta alquimia entre o real e o invisível, o quotidiano e o encantado, onde o simples gesto de acender uma luz torna-se um feitiço contra a escuridão, e o coração, em silêncio, aprende de novo a acreditar.


PB

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