Outubro, esse velho feiticeiro
Outubro chegou como um velho feiticeiro, trazendo nas mãos o pó dourado das folhas e uma melancolia que se infiltrou até nos meus ossos. Foi um mês de sombras longas e silêncios demorados, em que o tempo parecia ter perdido o passo — e eu, sem perceber, perdi o meu também. Atrasou-se a hora, e com ela atrasaram-se também os meus sorrisos.
Houve dias em que acordei com o coração apertado, como uma casa onde o vento entra por todas as frestas. Questionei o que sou, o que quero, o que ainda espero. Em alguns momentos fui branda, deixei que a vida me levasse, rendida à sua maré incerta. Noutros, ergui muralhas, defendi-me com teimosia e dignidade, como as mulheres que, nas histórias antigas, enfrentam o destino com as mãos nuas.
Mas a rotina salvou-me, como sempre salva. O café no lugar de sempre, o cheiro familiar das manhãs, e o riso das meninas que me chamam pelo nome como se o mundo fosse um bairro pequeno onde todos se conhecem pelo coração. Esses gestos simples — tão leves, tão invisíveis — mantêm o fio da minha esperança.
Depois veio a chuva, e com ela a lembrança dos que partiram, dos dias que não voltam, das promessas que ficaram suspensas no ar como roupa esquecida no varal. A luz encolheu-se nas tardes, e o frio trouxe consigo uma saudade antiga. Ainda assim, com mãos cansadas mas firmes, decorei a Academia de Halloween. As teias, os risos, os doces — pequenas magias que inventei para disfarçar o cansaço da alma. As crianças riram, e, por um instante, o riso delas curou-me um pouco.
No fim, Outubro foi isso: um mês que me desfez e me recompôs em silêncio. Um espelho estalado onde me vi frágil, mas viva. Um tempo de dor e de ternura, de quedas e de renascimentos pequenos. E talvez — como diria uma personagem de Allende — seja preciso perder-se um pouco para se lembrar do caminho de volta ao coração.
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