os meus pequenos infinitos
Há quem diga que os filhos são aquilo que sobra de nós depois de todas as tempestades. eu acho que são também o que nos antecede, o que nos projeta, o que nos costura ao mundo com um fio que não se vê mas pesa — pesa como uma âncora e como um balão. porque amar um filho é isso: estar preso ao chão e ao céu ao mesmo tempo.
os meus filhos são feitos do que fui e do que ainda estou a tentar ser. são pedaços de mim que decidiram ganhar pernas, rir de forma própria e perguntar coisas que me desarrumam por dentro. sangue do meu sangue, sim, mas também espanto do meu espanto, vida da minha vida — a parte onde me descubro outra vez, melhor e pior, às vezes mais frágil do que gostaria, outras vezes mais forte do que pensava.
há um amor que não cabe em vocabulário nenhum. é um amor desmedido, desses que não precisam de licença, desses que não pedem desculpa por transbordar. um amor que me toma sem pedir, como a maré que vem e nos molha até aos ossos. e se o mundo ardesse inteiro, eu ainda assim levaria os meus filhos nos braços, atravessaria as cinzas, reconstruiria o chão com as mãos. daria a minha vida pela deles, sem hesitação, tão simples como quem respira.
eles não sabem — ou talvez saibam, porque os filhos pressentem tudo — que é por eles que tenho aprendido a desacelerar, a olhar melhor, a ser menos tempestade e mais porto seguro. são eles que me ensinam a abrir janelas dentro da cabeça, a arrumar silêncios, a não ter vergonha da ternura. mostram-me que crescer não é deixar de ser criança, é apenas aprender a brincar com outras responsabilidades.
quando os vejo dormir, percebo que o mundo inteiro cabe num respirar pequeno. quando os vejo rir, sinto que a felicidade é um animal doméstico que finalmente aceitou ficar comigo. quando os vejo chorar, descubro que o meu coração é maior do que o meu corpo.
no fundo, os meus filhos são a prova de que a vida, apesar de tudo, ainda sabe escrever milagres. e que eu, que nunca pedi muito ao universo, recebi dele as coordenadas mais precisas: amar sem medida, proteger sem medo, existir com mais verdade.
são eles o meu poema interminável. o meu lado mais bonito. o meu viver mais verdadeiro e absoluto.
os meus pequenos infinitos.
PB
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