O Que Fica Quando Tudo Passa

 O mundo encolheu — não para caber na palma da mão, mas para caber dentro do peito, onde às vezes falta espaço até para respirar. Há dias em que sinto que sou feita de corrente de ar: entro pelas frestas, atravesso salas, cruzo pessoas, mas não permaneço. Sou uma presença que se insinua e depois se desfaz, como aquelas poeiras iluminadas por um rasgo de sol.

É estranho viver num planeta tão pequeno e, ao mesmo tempo, sentir que tudo à volta cresce em ruído. Encolhem as distâncias, diminuem as fronteiras, mas aumenta a sensação de que andamos todos ligeiramente desalinhados de nós mesmos — como se a alma tivesse dado um passo para o lado e o corpo ainda não tivesse percebido.

Talvez sejamos feitos de estórias, cada uma a desajeitar-nos um pouco. E há em mim uma melancolia antiga que sussurra que morremos como vivemos, na mesma direção em que caminhamos sem perceber: quem vive de passagem morre de passagem; quem vive às rajadas morre num sopro; quem vive pela metade nunca chega inteiro ao fim.

E eu, corrente de ar, vou tocando as coisas sem lhes pertencer.

O mundo encolheu, dizem. Talvez tenha sido isso que me encolheu também. Não por falta de grandeza, mas por excesso de movimento. É difícil criar raízes quando o chão vibra como um comboio em andamento.

E há tanta gente a aparentar ser, como quem veste um casaco emprestado: bonito por fora, folgado por dentro, sempre a escorregar dos ombros. Andamos a colecionar versões de nós mesmos para ver qual encaixa melhor na fotografia. Há quem viva só de reflexos — não pelo medo do espelho, mas pelo medo de encontrar lá dentro alguém que não sabe o que sentir.

No fundo, talvez seja isto o espírito do tempo: existir como quem segura água nas mãos. Saber que a vida escapa, que não há como contê-la, que a única verdade é este instante vacilante em que respiramos.

E ainda assim, apesar de tudo, há beleza. Há sempre beleza.
Mesmo numa corrente de ar que passou depressa demais.
Mesmo num mundo que encolheu para caber dentro do silêncio de cada um.

Talvez ser — verdadeiramente ser — seja apenas aceitar que nada nos pertence por completo, nem o corpo, nem a alegria, nem o tempo. Que somos feitos de vazios, mas também de luz. Que a vida é um sopro, sim, mas também é o ar inteiro antes e depois dele.

E que, no fim, morremos como vivemos:
uns a fingir, outros a sentir,
e alguns, raros, a atravessar o mundo como uma brisa —
leves, inquietantes, e profundamente verdadeiros.



PB

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