O Peso das Quedas

Dizem que o destino gosta de se esconder nas pequenas distrações — um olhar que se perde, um passo mal dado, um tropeço quase invisível. Talvez por isso cair seja o modo mais humano de revelar o enredo secreto das coisas.

Lembro-me de um velho livreiro, num bairro esquecido de Barcelona, que dizia que cada queda é um capítulo mal escrito da vida, mas que é nesses capítulos que se escondem as melhores frases. Ele falava com uma serenidade quase poética, como se tivesse feito as pazes com os próprios erros.
“Os que nunca caem”, dizia ele, “vivem histórias aborrecidas.”

E tinha razão. O erro dá espessura à alma, como a sombra dá relevo à luz.
Falhar é mergulhar num tipo de escuridão onde o mundo se revela sem máscaras. Porque só quem se perde no nevoeiro entende o valor do farol.

Aceitar o erro é como aceitar uma cidade de inverno — fria, mas cheia de promessas invisíveis. No início há resistência, há o orgulho ferido, há o som seco do impacto, mas depois, pouco a pouco, começa-se a ouvir o coração a bater outra vez.
O erro é o prelúdio da descoberta. A queda, o início da ascensão.

Os que se levantam depois de cair carregam nos olhos um brilho diferente — uma espécie de luz antiga, vinda do fundo das coisas.
São pessoas que conhecem o sabor do pó e, por isso mesmo, reconhecem o perfume da esperança.

Reerguer-se é um ato silencioso, quase secreto. Não há aplausos nem testemunhas — apenas o murmúrio do próprio sangue a dizer “continua”.
E continuamos, como quem percorre uma cidade destruída à procura de uma janela intacta.

No fim, percebo que as quedas são capítulos que o tempo escreve para nos lembrar da fragilidade que nos torna reais, onde cada falha é uma porta para algo mais profundo — uma versão de nós que só desperta quando o chão nos chama pelo nome.

E talvez seja isso que nos salva: o desejo teimoso de continuar a caminhar entre as ruínas, à procura de um sentido, de um perdão, de uma luz.
Porque, como me disse o velho livreiro naquela tarde de chuva,

 

“A vida não é feita das vezes que ficámos de pé,
mas das vezes que o coração se levantou antes de nós.”



PB 

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