Inspirar, expirar, repetir…
A minha espiritualidade não está escondida em templos nem em livros antigos, e muitos menos em rituais repetidos sem sentido. A minha espiritualidade está nos abraços sentidos que dou, no tapete de yoga que se enrola como uma serpente todas as vezes que tento fazer a postura do guerreiro, na bola de pilates que insiste em fugir das minhas mãos, e no riso involuntário que me escapa quando tento tocar os dedos dos pés sem dobrar o espírito.
A minha espiritualidade esta na escuta ativa dos outros, no tempo que sei dar aos meus amigos e nas respirações profundas que a professora de pilates me ensina e que parecem simples, mas carregam todo o peso do mundo lá fora. Inspirar, expirar, repetir… e perceber que, nesse movimento, consigo silenciar vozes, pensamentos apressados, pressa de existir. É ouvir o corpo falar e, pela primeira vez, aprender a ouvi-lo com respeito, sem pressa, sem culpa.
A minha espiritualidade às vezes parece-se com aquele café que se esquece na mesa: está ali, simples e silencioso, mas tem o poder de aquecer tudo ao redor.
Está no primeiro acorde da música que toca ao acordar, no riso que escapa no Café da Vila, na mensagem de um amigo que chega sem avisar, na sensação de que, mesmo com a mala pesada, é possível respirar fundo e continuar.
No carro, enquanto o mundo lá fora corre rápido, medito muitas vezes sem me aperceber. Observo pessoas, nuvens, o céu que muda de cor, e por um instante o tempo parece só meu. O telemóvel vibra, notificações chegam, mas há um silêncio interno — aquele momento em que se percebe: “Estou aqui. Eu existo. E está tudo bem em sentir o que sinto.”
A minha espiritualidade é perceber que tropeçar faz parte. Que errar é humano, que chorar não é fraqueza, e que rir de si mesmo é quase sagrado. A minha espiritualidade não está nas minhas idas à missa, mas nas pequenas revoluções do dia a dia: levantar para ajudar um amigo, ouvir sem julgar, escrever algo que ninguém vai ler, olhar o mundo e agradecer por ele ser tão confuso quanto nós.
E, no meio disto tudo, é também perceber que nem sempre é preciso entender tudo. Que a vida quotidiana, com as suas tarefas, trabalhos, mensagens, encontros e desencontros, é onde a espiritualidade se mostra. Nas escolhas simples, nos pequenos gestos, nas pausas para respirar e sentir.
E quando a noite chega, cansada e silenciosa, cada um de nós guarda em si um fio invisível de luz — a consciência de que cada dia é uma oportunidade de viver com atenção, cuidado e alegria. Que mesmo nas horas mais comuns, há algo sagrado no simples ato de existir.
Porque ser-se espiritual não é sobre encontrar respostas grandiosas. É sobre encontrar poesia no quotidiano, leveza no meio do caos, e magia nas coisas simples que nos fazem sentir vivos.
escrito num dia em que a aula de pilates foi mais sobre rir de mim mesma do que alcançar os dedos dos pés.
PB
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