Hello December

 Dezembro começou hoje com aquele brilho discreto que só o último mês do ano conhece — uma luz oblíqua, quase cúmplice, que pousa nas coisas como se as estivesse a acordar devagar. Gosto de pensar que é o melhor mês do ano, mesmo que tenha de ceder o primeiro lugar ao dia do meu aniversário, que reina sozinho no pódio. Ainda assim, dezembro chega sempre com uma espécie de milagre doméstico: o mundo parece mais redondo, mais quente por dentro, mesmo quando o frio lá fora nos morde os dedos.

Hoje é feriado, dizem os calendários e as agendas, mas as responsabilidades não sabem ler feriados. Os testes dos meus alunos esperam-me em silêncio, empilham-se como pequenas montanhas que só eu posso escalar. Há um certo ritual nisso: o abrir das folhas, o cheiro do papel, a concentração que se instala como uma visita que não anuncia a hora de partida. Poderia queixar-me, claro — todos podemos —, mas há uma espécie de honra em cumprir o que nos chama. Uma disciplina do espírito que ninguém nos ensinou, mas que aprendemos na vida real, com as pessoas reais que dependem de nós.

E é por isso que, apesar disso tudo, o dia é bom.

É bom porque fui cumprir a minha missão e ajudar os meus alunos para os testes que se avizinham e é bom porque os meus filhos estão em casa e há risos a deslizar pelos corredores, passos pequenos que fazem eco nas paredes e me lembram que a vida, afinal, é isto: esta convivência improvisada entre o trabalho e o amor, entre a rotina e a magia. Os dias parecem ganhar alma quando eles estão por perto, e hoje sinto isso com clareza. Há uma luz interior neste início de dezembro, como se o mês tivesse aberto a porta e deixado entrar um pouco de esperança. Cada gesto banal — as migalhas no pequeno-almoço, a chávena esquecida ao lado do computador, ou a voz que me chama para ajudar a fazer as malas — transforma-se em poesia discreta, dessas que se escondem nas coisas simples.

A semana começa assim: com responsabilidade no colo e ternura a rodopiar pela casa. Com trabalho a pedir-me atenção e com dezembro a oferecer-me um sorriso. Talvez seja essa a magia do mês — não a grandiosa, das luzes e das festas, mas a silenciosa, que acontece entre tarefas, entre páginas, entre abraços inesperados.

E eu percebo, mais uma vez, que há dias que nos salvam sem fazer barulho. Hoje é um deles.

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