Ex-alunos, memórias e pequenas lembranças

A campainha toca e, por um instante, a rotina do centro de explicações entra em modo pausa. Duas ex-alunas entram, com passos que hesitam, olhos que procuram algum ponto familiar, como se tentassem reconhecer pedaços de si mesmas que ficaram guardados entre estas paredes. E de repente a sala enche-se de lembranças — risos antigos que ainda ecoam, histórias que habitam silenciosamente os cantos, memórias que se soltam como folhas ao vento em dia de outono.

Sentam-se comigo, e é um instante quase sagrado. Contam segredos que guardaram durante anos, detalhes de vidas que construíram longe de mim — empregos que os desafiaram, amores que os transformaram, viagens que os fizeram crescer, os filhos que nasceram e que ocupam os seus pensamentos com ternura. Cada palavra é medida, mas carregada de afeto e confiança. É como se, por algumas horas, o tempo voltasse atrás e a nossa relação nunca tivesse mudado. (E, na verdade, não mudou!)

Os gestos delas falam tanto quanto as palavras. Um abraço apertado à chegada que parece querer recuperar anos inteiros, um olhar cúmplice que diz “lembras-te disso?”, uma mão que toca de leve no ombro, oferecendo apoio sem precisar de dizer nada. Há silêncio que diz mais do que qualquer discurso, e gargalhadas que curam o peso de meses ou anos. Tudo isso diz mais do que qualquer nota, qualquer correção ou elogio dado durante o ano letivo. É a prova de que a memória emocional não se apaga, que o afeto cria raízes profundas e invisíveis, que atravessam o tempo e resistem às mudanças da vida.

Enquanto escuto as histórias delas, percebo pequenas coisas que me escaparam à época: gestos que fizeram diferença, palavras ditas ao acaso que permaneceram, a atenção que nunca parecia suficiente mas que, de algum modo, se transformou em abrigo. Recordo-me de dias longos, cheios de dúvidas e esforços silenciosos, e vejo agora que cada gesto de paciência, cada sorriso oferecido, cada correção feita com cuidado, deixou uma marca — invisível, mas profunda.

Hoje houve também um SMS inesperado que me chegou do nada, logo pela manhã vinda de quem se lembrou de mim sem razão aparente: “Professora, hoje pensei em ti. Tem um dia bonito!” Palavras simples, leves, mas carregadas de calor e memória e que chegam como pequenos milagres, lembrando que a educação não se mede apenas em resultados, mas naquilo que perdura na alma dos que aprendem.

Ver ex-alunos regressarem, ouvir o que partilham, receber gestos e palavras inesperadas é perceber que a educação não termina com a última aula. Ela sobrevive no cuidado oferecido, nas sementes de empatia plantadas, nos abraços, nos olhares atentos, nas confidências e nas lembranças partilhadas. É um lembrete de que, apesar do tempo e da distância, algumas conexões são indestrutíveis. Conexões que se sustentam no amor, na atenção, no carinho silencioso e na amizade que conseguimos oferecer.

E por um instante — pequeno, mas infinito — sinto que todos os esforços, todas as noites longas, todos os dias de paciência e dúvida, foram recompensados. Não por medalhas ou diplomas, mas por aquele momento em que alguém regressa e te diz, com um abraço : “Tu fizeste diferença na minha vida. E eu nunca me esqueci de ti”


Obrigada Marta e Daniela. Hoje o dia ficou mais bonito ainda. 


PB

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