💔 Erro humano: ligação perdida

Há pessoas que só aparecem quando precisam de algo.
Têm o dom de surgir com um sorriso breve e um pretexto bonito, mas o olhar denuncia: vieram buscar, não vieram ficar.

Falam de amizade, mas confundem o verbo com interesse. Dão bom dia como quem pede licença para entrar, remexem o que temos, e partem antes que possamos perguntar se estavam bem.

São presenças leves, quase transparentes — não deixam marca, apenas um rastro de ausência. Sabem elogiar quando convém, concordar quando dá jeito, e desaparecer quando o silêncio começa a exigir verdade.

Depois há os outros — os que nos julgam de longe, como se a distância fosse uma lente que aproxima. Falam de nós com a certeza de quem leu a legenda, mas nunca viu o filme. São especialistas em interpretar silêncios, em traduzir gestos que não disseram nada. Constroem opiniões com base em fragmentos, e espalham versões como quem distribui panfletos de uma história que nunca viveram.

A hipocrisia é um teatro antigo. Dizer uma coisa, fazer outra. Prometer presença e desaparecer na primeira curva. Encher a boca de palavras doces enquanto o coração mastiga azedume.
Há quem viva disso — de parecer inteiro enquanto se parte por dentro. De colecionar relações como quem acumula seguidores, acreditando que quantidade é sinónimo de afeto.

E há também os que vestem a amizade como adereço. Usam-na para ser vistos, não para sentir. São especialistas em “amizades de ocasião”: aparecem quando há festa, quando há luz, quando há aplauso — mas somem quando o palco escurece. Vivem de conveniências disfarçadas de carinho, de trocas onde o “dar” é apenas o meio mais rápido de “receber”.

O vazio de certas pessoas é tão bem disfarçado que chega a parecer encanto. Têm frases ensaiadas, risos calculados e um talento raro para parecerem indispensáveis. Mas basta o tempo passar — e o silêncio alongar-se — para que se perceba que por trás da cortina há apenas eco.

Vivemos rodeados de gente, mas cada vez mais sozinhos. Porque a presença tornou-se performance e o afeto, moeda. Muitos dizem “conta comigo”, mas ninguém pergunta “como estás?”.
E assim se enche o mundo de relações descartáveis, de abraços rápidos, de vínculos frágeis.

Mas um dia a alma cansa.
Cansa de medir palavras, de esperar reciprocidade, de justificar-se a quem nunca quis entender.
E então vem o silêncio.
Não o silêncio da desistência, mas o da liberdade.
O silêncio que já não pede explicações, que já não se defende, que apenas se retira — inteiro.

Aprende-se, aos poucos, que não é egoísmo cuidar de quem fomos antes que nos quebrassem. Que há amores que valem o adeus e amizades que só sobrevivem no passado. Que nem toda a perda é tragédia — algumas são libertação.

E que há um tipo de solidão que não dói — apenas limpa.
Lava o coração das promessas que não vingaram, das palavras que não eram verdade, das presenças que só ocupavam espaço.

No fim, o erro é continuar a esperar de quem nunca soube ficar.
E o acerto é seguir — mais leve, mais verdadeiro, menos disponível para quem só aparece quando o copo está cheio.
Porque amizade que precisa de conveniência não é laço — é nó.
E nós, cedo ou tarde, aprendemos a desatar.


PB

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