Backup da alma
Guardar o que o tempo insiste em apagar
Há dias em que penso que a alma é um disco antigo, riscado, cheio de faixas que o tempo já não toca. As lembranças vão se apagando devagar, como se a memória fosse um computador cansado, tentando libertar espaço para continuar a funcionar. Mas há coisas que não deviam ser apagadas — nem mesmo para abrir espaço para o novo.
O mundo ensina-nos a salvar tudo em nuvens: fotos, documentos, mensagens, vidas inteiras que cabem num ecrã. Mas quem faz o backup do que realmente importa? O cheiro da casa onde crescemos, o som do riso de alguém que já partiu, a primeira vez que alguém nos chamou pelo nome e soou bonito.
Talvez a alma precise de uma cópia de segurança — não das coisas que temos, mas das que sentimos. Uma pasta secreta onde se guardam os afetos, os cheiros, os pequenos silêncios que nos moldaram. Uma nuvem que não dependa de senha, apenas de lembrança.
Tenho medo de perder certas partes de mim. Às vezes sinto que estou sempre a fazer upload do que os outros esperam e download do que sou capaz de oferecer. E nesse processo, os ficheiros mais antigos — os que me fizeram quem sou — vão sendo corrompidos pelo tempo e pela pressa.
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