As segundas-feiras sabem a recomeço
As segundas-feiras têm um cheiro próprio — mistura de café recém-feito e sono por terminar. Chegam sempre sem pedir licença, abrindo as cortinas do tempo com a pressa de quem quer pôr o mundo novamente a girar. São dias que começam antes de nós, impacientes, com as mãos nas ancas a perguntar porque é que ainda estamos a sonhar.
Há nelas uma melancolia pequena, quase bonita, como se o domingo deixasse um perfume no ar antes de partir. As segundas são o eco desse adeus: um chão frio onde os passos ainda hesitam. Mesmo assim, há nelas um poder antigo — o poder de recomeçar, mesmo cansado, mesmo sem fé, mesmo com a alma a meio caminho do fim de semana.
Dizem que os deuses descansaram ao sétimo dia, mas nunca nos contaram quem inventou o oitavo: esse que se disfarça de segunda-feira e nos obriga a acordar. Talvez tenha sido um deus distraído, que acreditava que a criação precisava de ser refeita todos os dias. E é isso que fazemos: refazemos o mundo, um pequeno gesto de cada vez — uma chávena de café, uma respiração funda, uma palavra dita sem vontade mas com esperança.
As segundas são, afinal, o território dos que tentam. Dos que voltam a abrir a janela mesmo que a vista seja a mesma. Dos que vestem a coragem e seguem, ainda que o corpo peça cama e o coração peça pausa. São o recomeço humilde, o ponto zero de todos os sonhos que se vão desenhando à força de rotina.
Talvez por isso haja algo de sagrado em começar outra vez. As segundas-feiras testam a fé dos mortais: não a fé nos céus, mas a fé na própria vida. E, quando o dia termina, e sobrevivemos mais uma vez à engrenagem das horas, há uma espécie de milagre discreto — o mundo não acabou, e nós também não.
No fundo, as segundas-feiras são isso: a prova de que o tempo não é inimigo, mas um velho companheiro que insiste em oferecer novas oportunidades — mesmo quando não as pedimos.
E é assim, que entre o bocejo e o primeiro gole de café, o mundo volta a nascer.
PB
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