As amizades que ficam

(Continuação do post de ontem...)

Depois de tudo, há sempre alguém que fica.
Nem sempre é quem esperávamos, nem quem esteve mais tempo. Às vezes é apenas quem soube ouvir quando o mundo inteiro fazia barulho.
Quem não perguntou o que se passava — apenas ficou.

As amizades verdadeiras não precisam de anúncios, nem de demonstrações públicas. Não vivem de presenças diárias, mas de silêncios compreendidos. São aquelas em que podemos estar ausentes sem deixar de estar perto, porque o afeto não precisa de Wi-Fi — apenas de verdade.

São amizades que não competem, que não contam likes, que não pesam o que cada um deu ou recebeu. São simples e, por isso mesmo, raras.
Têm o dom de nos devolver a nós mesmos quando já não nos reconhecemos.

Essas pessoas não aparecem só quando o copo está cheio — ajudam a enchê-lo quando está vazio. Não dizem “podes contar comigo” porque sabem que o “contar” não precisa de palavras: está nas entrelinhas, no gesto, no olhar que entende antes de perguntarmos.

São os amigos que não nos exigem versões alegres para ficarem por perto. Aceitam o silêncio, o cansaço, o desalinho. Sabem que calar é mais bonito do que consolar, e que um café partilhado vale mais do que mil mensagens trocadas às pressas.

Essas amizades não pedem palco. Crescem na sombra dos dias comuns — nas conversas que não acabam, nos risos que surgem do nada, nas confidências ditas em voz baixa. São raízes, não flores: não precisam de exibição, apenas de tempo e chão.

E o mais bonito é perceber que a reciprocidade não se mede por frequência, mas por presença.
Por aquele “cheguei” dito com calma. Por aquele abraço que desfaz o peso. Por aquele olhar que, sem julgamentos, diz: “eu entendo”.

Com o tempo, aprendemos que as verdadeiras amizades não se contam — reconhecem-se.
Não precisam de juras, apenas de constância.
Não prometem eternidade, mas cumprem o agora com honestidade.

E é aí, nesse espaço de leveza, que a alma descansa.
Porque não há nada mais raro do que alguém que nos veja inteiros — não como parecemos ser, mas como realmente somos.
Alguém que fica quando a multidão parte. Que vê beleza onde os outros veem falha. Que não tenta consertar, apenas acompanha.

Essas amizades são abrigo.
São casa.
E quando as encontramos, percebemos que não é preciso ter muitos — basta ter quem nos saiba ver.

Porque no fim, é isso que importa:
não quem ficou por interesse, mas quem ficou por amor.
Não quem falou mais alto, mas quem nos ouviu em silêncio.
Não quem entrou de passagem, mas quem decidiu permanecer — mesmo quando já não havia espetáculo.

Essas são as amizades que não precisam de explicação.
São as que aquecem quando o mundo arrefece.
E quando o tempo passa — e tudo muda — são elas que continuam lá, firmes, lembrando-nos que a lealdade ainda existe.
E que, às vezes, basta uma só alma sincera para curar o eco de todas as ausências.


PB

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