Amanhã Tentarei de Novo
Há dias em que acordar parece uma tarefa impossível. O corpo levanta-se, mas a mente ainda está debaixo do cobertor, presa num labirinto de vozes que não param de falar. Cada pensamento é uma mão que empurra para todos os lados, cada sensação é um aperto no peito que ninguém mais parece sentir.
A ansiedade é como um relógio estragado que insiste em fazer tic-tac dentro da nossa cabeça, mesmo quando o mundo lá fora está em silêncio. É imaginar todos os problemas antes que aconteçam, é sentir medo de coisas que nem vieram ainda, é sentir culpa por não ser capaz de controlar nada. E a depressão? Ah, a depressão é uma nuvem que encobre o céu. Não é só tristeza; é vazio, é silêncio dentro do corpo, é olhar para o espelho e não reconhecer quem está lá.
Mesmo assim, existe vida ali, dentro desse labirinto. Pequenos gestos podem ser lanternas na escuridão. Um amigo que escuta sem julgar, uma palavra que diz: “tu não estás sozinha”, uma música que parece entender o que ninguém mais consegue, um abraço dado só porque sim. Existem terapias, livros, exercícios, momentos de respiração, pequenos atos que ajudam a tornar a mente menos caótica, mas precisamos uns dos outros para não nos afundarmos e precisamos de coragem para pedir ajuda. Coragem para dizer: “Hoje não consigo, mas amanhã tentarei de novo.” Coragem para admitir que sentir dói e que não há vergonha nisso. E essa coragem, silenciosa e persistente, é maior do que qualquer nota, aprovação ou elogio.
Todos carregam mundos inteiros dentro de si. Mundos de perguntas, medos, sonhos, desejos, incertezas. E cada dia que conseguem atravessar mesmo com o peso da ansiedade ou da depressão é um ato de resistência. Cada gesto de cuidado, consigo mesmo ou com os outros, é uma pequena revolução.
Porque a saúde mental não é apenas um remédio, uma consulta ou uma técnica. A saúde mental é lembrar que sentir não é fraqueza. É aceitar que o mundo às vezes dói, mas que existem pessoas, caminhos e momentos que fazem o mundo doer menos. É aprender a respirar no meio da tempestade, mesmo quando a tempestade parece não ter fim.
E no fim, quando nos deitamos à noite, exaustos mas vivos, há uma esperança que ninguém vê: a de que cada respiração, cada gesto de cuidado, cada instante de coragem, mesmo pequeno, constrói um mundo mais seguro para existir. Um mundo onde se pode chorar sem vergonha, sorrir sem culpa, existir sem pedir licença.
PB
Comentários
Enviar um comentário