Alcaide - no coração das Beiras
Há lugares que parecem guardar um pedaço do tempo — como se o mundo lá fora corresse depressa demais, e ali dentro tudo respirasse devagar.
Alcaide é assim. Uma pequena pausa entre o barulho dos dias. Um refúgio onde o ar cheira a terra molhada, o vento traz música, e o riso ecoa entre árvores e montanhas.
Estão a ser uns dias de férias em família, mas parecem capítulos de um livro que não queremos fechar. Há mesas cheias, conversas leves, crianças a correr entre barracas de feira e adultos a redescobrir a alegria de não ter pressa.
O Festival dos Míscaros é mais do que um evento — é um abraço à vida.
Há arte em cada esquina, sabores que despertam memórias, melodias que se misturam no cheiro da comida e fazem o coração dançar sem precisar de palco.
À noite, o céu parece ainda mais perto. As luzes pequenas das tendas competem com as estrelas, e o riso das pessoas confunde-se com o som distante de uma guitarra.
É como se o mundo inteiro tivesse decidido, por um instante, ser leve.
E foi neste cenário simples que o amor verdadeiro mostrou o seu rosto.
Não o amor feito de promessas e dramas — mas o que se revela nos gestos pequenos: no olhar que entende, na mão que segura, no silêncio que conforta.
O amor que se reconhece no meio da multidão sem precisar chamar.
Que partilha um pedaço de pão e um sorriso cansado, e ainda assim parece ter tudo.
O amor verdadeiro tem muito de feira antiga: é artesanal, imperfeito, feito à mão e com paciência.
Não vive de pressa nem de espetáculo. Cresce devagar, entre risos partilhados e tardes sem planos.
Tem cheiro de comida boa, som de gargalhada e alma de casa aberta.
Entre um prato de cogumelos salteados e um copo de vinho, havia magia — não daquelas que se anunciam, mas da que acontece quando as pessoas estão inteiras.
Era o toque da música a misturar-se com o vento e a chuva, o brilho do fogo a refletir nos rostos, o sentimento simples de que, por algumas horas, tudo estava certo.
Talvez o amor seja isso: reconhecer beleza onde outros só veem rotina.
Encontrar encanto num lugar pequeno, descobrir grandeza nos gestos banais.
Amar é estar — não apenas quando há sol, mas também quando o céu ameaça chuva.
É partilhar o último pedaço de bolo e mais uma filhós, é rir do imprevisto, é perceber que o que importa não está no plano — está no instante.
Em Alcaide, entre arte, música e natureza, o tempo abrandou o suficiente para que nos víssemos uns aos outros — de verdade.
Sem filtros, sem distrações.
Só nós, o cheiro da terra, e a leveza de sentir que a felicidade mora nas coisas simples.
No fim, ninguém quer ir embora.
Porque, quando o amor é verdadeiro e a companhia é boa, qualquer lugar se transforma em casa — mas há casas, como aquela aldeia cercada de verde e de gente boa, que nos lembram por que vale a pena vir e querer ficar.
PB
Comentários
Enviar um comentário