A elegância de mudar de ideias
Há quem passe a vida inteira a tentar ser coerente, como se a coerência fosse um altar onde se sacrifica a própria respiração. Eu, pelo contrário, sempre vivi entre ruínas e renascimentos. Sou feita de começos sucessivos, daqueles que não pedem licença e se anunciam quando menos esperamos.
Sempre senti que saber mudar de ideias e adaptar-me às circunstâncias era uma espécie de arma secreta. Uma espécie de coragem silenciosa que me tornava capaz de admitir: “já não sou o mesma, embora mantenha a mesma essência".
Ser pessoa é isso — não sermos estátuas, mas rios.
E ser rio significa aceitar que nunca somos a mesma água, nem seguimos exatamente o mesmo curso, mesmo quando insistimos em olhar para mapas antigos.
O que ninguém diz é que mudar dói.
Recomeçar dói.
E que realinhar o que se desalinhou dentro de nós também dói e é como endireitar um osso mal curado — precisa de ser quebrado de novo para voltar ao sítio certo.
Mas aprendi — sempre tarde e sempre depois de me magoar — que não há outra forma de ser inteiro a não ser permitindo que a vida nos parta quando for preciso.
Caí tantas vezes que já conheço de cor a textura do chão.
E ainda assim, cada queda me obrigou a inventar uma nova forma de voltar a mim.
Há quem veja nos recomeços um sinal de falhanço.
Eu vejo precisamente o contrário: falhanço é permanecer imóvel.
Falhanço é continuar fiel ao que já não faz sentido, e viver agarrado à velha pele até sufocar dentro dela.
A vida empurrou-me tantas vezes para fora de mim que aprendi o caminho de regresso quase de olhos fechados.
Perdi pessoas, lugares, certezas, versões inteiras daquilo que acreditava ser.
E, com o tempo, percebi que as perdas não são buracos: são portas.
Talvez estreitas, talvez dolorosas, mas sempre passagens.
Os recomeços tornaram-se a minha gramática.
Não porque os deseje — ninguém deseja estar sempre a começar do zero —, mas porque descobri que sobreviver-lhes é uma competência tão profunda quanto respirar.
Há quem aprenda a tocar um instrumento.
Eu aprendi a tocar nas minhas próprias ruínas.
Realinhar os pensamentos é como afinar algo gasto: no início, tudo soa áspero, desafinado, quase vergonhoso.
Mas, com tempo e gentileza, surge qualquer coisa como uma melodia possível.
Há dias em que me sinto um livro sem última página.
Outros, uma casa reconstruída tantas vezes que os alicerces são feitos mais de memória do que de pedra.
Mas nunca me senti menor por isso.
A vida é uma máquina de criar mundos dentro de nós — mundos que se desfazem e refazem ao ritmo da coragem.
E se há algo que aprendi, no meio de tantos falsos fins, é que não é preciso ser sempre a mesma para ser verdadeira.
A vida muda.
Nós mudamos.
E, ainda assim, algo permanece — um fio invisível que nos mantém inteiros mesmo quando tudo parece desmoronar.
Esse fio chama-se recomeçar.
É nele que me agarro quando o mundo pesa demais.
É com ele que remendo o que se rasga.
E é graças a ele que, cada vez que caio, descubro não um fim, mas uma nova forma de me levantar.
Talvez a vida seja isso:
um conjunto infinito de versões provisórias de nós, todas legítimas, todas necessárias, todas a caminho do ser que ainda estamos a aprender a ser.
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