Quando o coração (também) dói ...

O silêncio não é vazio. Pelo contrário, ele grita com uma intensidade que ninguém vê. É nele que moram as saudades, as dores, os nomes das pessoas que já não voltam. A minha vida é feita de muitas pessoas perdidas: o meu pai, os meus avós, amigos que a vida levou para longe. Cada um deixou uma marca invisível, e o silêncio é a memória desses rastos que ainda me acompanham.

Muitas vezes, o meu silêncio é dor e tristeza. Disfarço sorrindo, como se nada pesasse, como se o coração não tivesse feridas. Mas está lá, escondido entre palavras que não digo, entre gestos que guardo só para mim. O mundo vê o meu riso, a minha vontade de animar, de cuidar, de fazer os outros felizes — e não suspeita do que o silêncio carrega.

A vida já me maltratou de várias maneiras. Já me fez tropeçar, perder caminhos, despedir-me de quem amava, enfrentar dias que pareciam não ter fim. Mas, apesar de tudo, não sou amarga. Não deixo de dar tudo de mim, todos os dias, para espalhar alegria, para segurar mãos, para sorrir com quem precisa. É um esforço que cansa, que pesa, mas que também dá sentido.

E percebo que há beleza nesse contraste: na força de quem continua, mesmo com cicatrizes; na coragem de oferecer felicidade, mesmo quando o coração dói; no riso que surge apesar da saudade; na capacidade de estar presente, mesmo com partes de nós que já partiram.

O silêncio é, muitas vezes, o que diz mais do que todas as notificações, todos os gritos, todos os avisos. Ele guarda histórias, saudades, ausências e a verdade de que somos feitos de encontros e partidas. Mas também guarda a esperança, o amor e a resistência de quem escolhe continuar a caminhar, mesmo que com passos mais lentos, mesmo que com o coração apertado.

E é nesse silêncio que encontro uma espécie de poesia: a vida não é perfeita, não é justa, mas ainda assim pode ser bela. Pode ser feita de gestos pequenos, de sorrisos partilhados, de coragem diária. Pode ser minha, inteira, mesmo com todas as perdas, mesmo com todas as dores que calo, mesmo com toda a saudade que pesa.

No fim, percebo que continuar a dar, a sorrir, a cuidar, é a forma mais profunda de resistir. E que o silêncio, quando olhado com atenção, não é apenas dor: é também lembrança, força, amor e vida.


PB

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