O riso inesperado que me devolve a fé no mundo

O riso não avisa. Surge de repente, como uma brisa suave, e muda tudo. Pode vir de uma piada sem graça, de um tropeço inocente, de uma conversa que parecia banal até que alguém disse algo que nos fez soltar um riso involuntário. E, nesse instante, o mundo volta a ter cores.

Há dias em que tudo parece pesado demais: contas, horários, e-mails, pequenas frustrações que se acumulam como nuvens cinzentas ao longo do dia. Mas basta ouvir um riso inesperado — mesmo à distância — para que o peso se dilua. É como se o riso tivesse o poder de limpar o céu, de abrir fendas de luz entre o caos do dia a dia.

Lembro-me de uma vez, sentada num café, perdida nos meus pensamentos e na pressa alheia, quando alguém à minha frente riu de um pequeno absurdo. E, sem querer, também ri. Foi um riso breve, mas suficiente para me lembrar que a vida continua a ser feita de instantes mágicos, mesmo quando ninguém espera.

O riso inesperado devolve a fé no mundo porque é honesto, espontâneo, impossível de ensaiar. Não se compra, não se planeia, não se força. Surge e basta. E, quando surge, sentimos que não estamos sozinhas, que há algo de bom a acontecer mesmo nas esquinas mais discretas do dia.

Às vezes penso que deveríamos procurar mais desses momentos. Não os grandes acontecimentos, não as vitórias anunciadas, mas os pequenos risos que surgem quando menos esperamos. Um riso de criança a atravessar a rua, um amigo que lembra uma história antiga e nos faz gargalhar, um vizinho a tropeçar e levantar-se com graça.

O riso inesperado é delicado e poderoso. Ele não resolve problemas, não paga contas, não muda a realidade. Mas muda a nossa perceção dela. Faz-nos sentir leves, lembrando que mesmo nos dias mais cinzentos há cor, mesmo nos momentos mais sérios há leveza, mesmo na rotina há surpresa.

E assim, quando volto para casa, ainda com um sorriso nos lábios, percebo que esses pequenos risos são, talvez, as maiores provas de que o mundo vale a pena. Porque a fé no mundo não se reconstrói com grandes gestos: reconstrói-se com risos inesperados que nos tocam, que nos libertam e que nos lembram de continuar a olhar para o céu, mesmo quando nuvens insistem em aparecer.


PB

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