O que aprendo com eles

 Os meus alunos são mundos. Cada um carrega o seu próprio universo, com mares calmos e tempestades inesperadas, com luas que iluminam discretamente e com sóis que, às vezes, queimam demais. São pequenos no tamanho, mas imensos naquilo que me ensinam: generosidade, coragem, ternura. São humanos pequeninos a dar lições de gente grande, e eu, que tantas vezes julgo estar a guiar, descubro-me guiada por eles.

Na sala de aula, convivem muitos universos num só espaço. Cada carteira é um planeta, cada olhar um horizonte, cada silêncio uma galáxia em expansão. Entre nós há piadas partilhadas que só fazem sentido naquele espaço sagrado: códigos secretos de riso, gargalhadas que explodem como fogos de artifício em plena manhã cinzenta, e silêncios cúmplices que dizem mais do que qualquer manual. Há também os medos que eles escondem mal — ansiedades que se instalam nas mãos suadas, olhares que pedem coragem, perguntas que hesitam na ponta da língua. E, como ondas que vêm e vão, há lágrimas rápidas que secam num lenço oferecido, logo substituídas por sorrisos discretos, quase travessos, que me lembram, a cada dia, que ninguém caminha sozinho quando aprende.

Confio neles e eles confiam em mim. Essa confiança não se ensina em currículo algum. Não vem em livros, nem em planos de aula. Nasce no gesto de dar a mão para atravessar uma dificuldade, no aconchego de um abraço dado sem aviso, no olhar atento que percebe antes da palavra. Nasce também nas anedotas improvisadas que me arrancam gargalhadas quando percebem que o meu coração anda mais pesado. Eles sabem, de uma forma quase mágica, que ensinar não é só explicar: é também reparar, cuidar, estar presente.

Cada um é personagem de uma narrativa em construção, com capítulos de conquistas e páginas de tropeços. São bibliotecas ambulantes, guardando histórias que ainda nem sabem que carregam. São almas em estado de poesia, a procurar, no caos do mundo, um lugar seguro para crescer, tropeçar e levantar-se de novo.

E eu? Eu, que entro todos os dias naquele espaço acreditando que sou professora, descubro-me sempre aprendiz. Aprendo a rir do imprevisto, a abraçar o que não sei, a reconhecer no gesto pequeno a grandeza da humanidade. Descubro que educar é muito mais do que ensinar a ler ou a contar: é aprender a traduzir silêncios, a reconhecer fragilidades, a confiar no invisível que nos une.

Os meus alunos são mundos, e talvez seja esse o maior segredo da educação: não se trata apenas de preparar para o futuro, mas de vivermos juntos o presente, de caminhar lado a lado, de segurar a mão quando a estrada se estreita. Porque, no fim de tudo, ensinar e aprender são dois verbos que se conjugam sempre em companhia.


PB

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